O campus da UEL (Universidade Estadual de Londrina) amanheceu quase vazio nesta segunda-feira (29). Professores e funcionários da instituição paralisaram as atividades para informar as comunidades interna e externa sobre a falta de reajuste nos salários dos servidores estaduais. Segundo eles, a defasagem chega a 17% e as perdas salariais da categoria chegam a dois salários por ano. A mobilização se estendeu às unidades de saúde da UEL, mas sem interrupção dos atendimentos aos pacientes.

O dia escolhido para o ato marca os quatro anos do massacre do Centro Cívico. Em 29 de abril de 2015, professores da rede estadual de ensino foram reprimidos pela PM (Polícia Militar) durante protestos contra alterações no regime da previdência do funcionalismo propostas pelo então governador Beto Richa (PSDB). O episódio deixou mais de 200 pessoas feridas.

“Uma professora avisou que não viria hoje para dar aula, mas nem todos os professores comunicaram se haveria atividades ou não, então eu vim para a UEL e estou esperando, mas até agora o professor não apareceu”, disse um aluno de direito, sentado nas escadas do Cesa (Centro de Estudos Sociais Aplicados). “Nós viemos porque o professor que dá as aulas de hoje é temporário e já avisou que não iria aderir à mobilização”, disse um grupo de estudantes do CCB (Centro de Ciências Biológicas).

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No início da manhã, manifestantes realizaram panfletagem nas principais vias de acesso à universidade, o que deixou o trânsito mais lento. Nos estacionamentos dos centros de estudos, os poucos veículos indicavam uma grande adesão à paralisação. “Em alguns centros é mais difícil conseguir a adesão. Teve professor aplicando prova hoje. Mas 90% aderiram à mobilização”, avaliou o professor do Departamento de Artes e Design Gráfico da UEL e membro do Sindiprol (Sindicato dos Professores do Ensino Superior Público Estadual de Londrina e Região), Luiz Carlos Jeolás. “Não sei se é planejado ou não, mas o que estamos vendo é um desmonte da saúde e da educação.”

Além da defasagem, os professores se queixam da carga de trabalho, que consideram excessiva. “Eu, por exemplo, estava com 22 horas/aula. Como vou cumprir uma carga de trabalho dessa e ainda fazer projetos de extensão, pesquisa? Fico imaginando que estamos chegando nas mesmas condições dos professores da rede estadual. Estamos desgastados, sem incentivo para aperfeiçoamento”, lamentou Jeolás. “Mas a gente não esmorece”, acrescentou o professor.

No HU (Hospital Universitário), foram colocadas faixas pedindo respeito à data-base da categoria e representantes da Assuel (Sindicato dos Servidores Públicos Técnico-Administrativos da UEL) entregaram panfletos aos funcionários e pacientes. “O governador (Ratinho Júnior – PSD) prometeu em campanha que daria o reajuste aos servidores, mas agora voltou atrás. Os eleitores deram a ele um voto de confiança, ele se elegeu no primeiro turno, mas enganou todo mundo”, disse a integrante da diretora da Assuel Lucia Regina Bezerra.

A sindicalista é funcionária da creche do HU e reclama não só da defasagem salarial, mas também do encolhimento do quadro de servidores. Segundo ela, em 2003, a creche do hospital contava com 30 profissionais. Hoje, são apenas dez para atender cerca de cem crianças. “Estamos atendendo um número de crianças menor do que a nossa capacidade porque não temos funcionários em número suficiente. Enquanto isso, há crianças na fila de espera. E a situação é igual na creche do campus”, criticou Bezerra.

Os servidores do hospital também se queixam da sobrecarga de trabalho resultante da escassez de funcionários. “Temos 300 pessoas em chamamento público, temos o pessoal terceirizado e tem funcionário do hospital dobrando. O Estado só paga 60 horas extras, o restante vai para o banco de horas, mas o trabalhador nunca consegue compensar essas horas porque faltam funcionários. As licenças-prêmio também estão todas suspensas”, ressaltou Bezerra.

“Estamos trabalhando com um terço a menos do nosso efetivo e temos um agravante, que são os terceirizados e os chamamentos públicos. Isso faz com que toda a UEL – HU, COU (Centro Odontológico Universitário), HC (Hospital de Clínicas) e HV (Hospital Veterinário) – não consiga atender a contento por conta do capital humano. E tem ainda o capital financeiro. Estamos com os salários congelados desde 2016”, destacou o presidente da Assuel, Arnaldo Mello.

A mobilização desta segunda-feira, explicou Mello, é uma forma de mostrar à sociedade a precarização dos serviços oferecidos pela universidade à comunidade “em todos os setores”. “O prejuízo para a UEL também é enorme. Não temos pessoas para limpar as salas de aula, para atender nos laboratórios, para atender os alunos, docentes nem os usuários dos hospitais. É um sucateamento geral, de capital humano e financeiro”, declarou o presidente da Assuel.

Estudantes e administração da UEL

O DCE (Diretório Central Estudantil) publicou nota no site de relacionamentos Facebook em que manifesta o apoio à paralisação dos servidores por considerar legítima a reivindicação de reajuste da data-base dos servidores do Estado. “Lembramos a importância da paralisação nesta data, que está marcada pelo massacre contra os manifestantes que defendiam o ensino público no fatídico “29 de abril” de 2015. Quando, sob o comando do atual deputado Fernando Francischini e o ex-governador Beto Richa, a tropa de choque deixou 200 manifestantes feridos na Assembleia Legislativa do Paraná”, diz a nota.

No fim do texto, o DCE convoca “todos e todas” a aderir às manifestações dos servidores da universidade, “em memória a essa data fúnebre de 29 de abril de 2015 e contra as ações de precarização do Estado”.

A assessoria de imprensa da UEL afirma que, apesar da paralisação, os serviços à população não foram suspensos. Em nota oficial, a gestão da universidade diz respeitar a decisão colegiada de paralisação nesta segunda-feira e “aponta que poderão ser debatidos nos Conselhos Superiores os ajustes nos calendários acadêmicos e a reposição das aulas e atividades que não se realizarem em razão da participação dos servidores nas ações programadas pelas categorias”.

(Colaborou Luís Fernando Wiltemburg)

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