Folha ImagemDesesperoJosé Nogueira do Nascimento e família. Ele participou de saque e levou quatro quilos de arroz, uma lata de óleo e dois pacotes de leite vencidosO trabalhador rural José Nogueira do Nascimento, de 35 anos, participou recentemente de um saque a um depósito de merenda escolar em Piancó, cidade com 15,5 mil habitantes, localizada na área da seca, a 380 km de João Pessoa, na Paraíba. Ele disse estar desesperado. Em janeiro, Nascimento plantou milho e feijão e perdeu tudo por falta de chuva. Para dar de comer à família, Nascimento disse que participaria de outros saques. Sem ganhar dinheiro há um ano, ele, a mulher, Rosário, 36 anos, e as três filhas Josefa, 11, Emanuela, 7, e Maria, 1 mês e 23 dias, dependem da caridade de vizinhos e de alguns parentes. Do saque, ele levou quatro quilos de arroz, uma lata de óleo e dois pacotes de leite vencido. O trabalhador rural, que não sabe o que é iogurte, discorda do presidente Fernando Henrique Cardoso, que chamou de ‘‘irresponsável quem defende saque. Leia a seguir a entrevista que ele concedeu à Agência Folha.
Agência Folha - Por que você participou do saque ao depósito de merenda escolar?
José Nogueira do Nascimento - O que me levou a saquear foi a fome. A minha casa estava limpa, não tinha nada. O jeito foi agir e conseguir a comida para meus filhos comerem. Eu não ia deixar meus filhos morrerem de fome.
O que você conseguiu pegar durante o saque?
Nascimento - Peguei quatro quilos de arroz, uma lata de óleo e dois pacotes de leite.
Deu para comer quantos dias?
Nascimento - Três dias. Só o arroz. Não tinha feijão. O leite era para as crianças, mas estava vencido. Jogamos no mato.
Antes do saque, o que você tinha comido em casa?
Nascimento - A gente não tinha comido nada no dia do saque. Tinha comido um pouco, que minha mãe me deu, no dia anterior.
Foi a primeira vez que participou de um saque?
Nascimento - Graças a Deus, foi a primeira vez. E, se acontecer de novo, eu vou outra vez. Não vou deixar meus filhos morrerem.
Como foi que você soube que haveria o saque?
Nascimento - Passou aqui um colega e ele me chamou. Até chorando ele estava. Passou com os filhos morrendo de fome. Eu estava no maior aperreio e acompanhei.
Você morava em um sítio. Como está a situação lá?
Nascimento - A situação estava ruim. Plantei e não deu nada. Eu vi que não ia dar nada mesmo e resolvi morar na cidade porque sempre fica mais fácil.
No sítio, a situação é pior?
Nascimento - É pior porque não tem onde trabalhar, nem tem a quem pedir. Aqui, pelo menos, ainda tem um vizinho que socorre a gente. Lá no sítio não tem.
Você já ouviu falar em d. Marcelo Carvalheira?
Nascimento - D. Marcelo Carvalheira? Nunca ouvi falar
Ele é o arcebispo de João Pessoa. D. Marcelo disse na imprensa que apóia os agricultores na invasão aos depósitos de merenda e até aos supermercados.Você acha isso correto?
Nascimento - Tendo comida dentro de casa, eu não acho correto. Agora, não tendo, o cara tem que agir.
Você sabe quem é o presidente da República?
Nascimento - Sei não senhor.
O presidente Fernando Henrique Cardoso disse que quem incentiva o saque é irresponsável. Você concorda?
Nascimento - O cara passando fome e não poder agir? Não. O cara tem que agir mesmo. Não vou passar fome, nem deixar meus filhos morrerem de fome.
Outra coisa que o presidente diz é que vai mandar a Justiça agir em caso de saques. Você tem medo de ser preso?
Nascimento - Eu não tenho medo. Para não deixar meus filhos morrerem de fome, faço tudo o que posso. O que é possível fazer, eu faço. Só não vou matar.
Se você tivesse a oportunidade de falar com o presidente, o que diria a ele?
Nascimento - Que ele tem que me acudir junto com meus filhos.
Você sabe o que é um iogurte?
Nascimento - Iogurte? Sei não.
Há quanto tempo vocês não comem frango?
Nascimento - Ih...Esse negócio de eu comer galinha...Se eu for botar tempo...faz mais de um ano.
E pão?
Nascimento - Pãozinho, ninguém come. Aqui a gente não tem dinheiro nem para comprar pão.
Quanto tempo faz que vocês não comem pão?
Nascimento - Faz muito tempo. As crianças amanhecem o dia sem comer nada. As vezes é só o cafezinho, quando vem lá de minha mãe. Às vezes, o vizinho dá cuscuz para elas. Hoje, a vizinha deu cuscuz com ovo para elas comerem. Mas, se não tiver, elas passam o dia com fome.
ocê estudou?
Nascimento - Nunca estudei na minha vida. Nunca.
Há quanto tempo você está desempregado?
Nascimento - Faz mais de um ano. Desde que voltei de São Paulo, há mais de um ano, onde fui trabalhar como pedreiro.
Você recebe assistência de algum político, de alguma igreja, de algum médico?Alguma entidade ajuda você?
Nascimento - Somente meus vizinhos e mais ninguém. De prefeito e de político, não recebo nada. Só recebo pancada. O que eles dão aqui é pancada.
Quem é o responsável por essa situação de miséria?
Nascimento - É o prefeito. Ele é quem deve acudir. Oferecer serviço para a gente trabalhar. O governador José Maranhão também é o culpado.
Você trocaria seu voto por um emprego?
Nascimento - Na hora. Para trabalhar e dar de comer aos meus filhos, eu troco na hora.

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