Assunção, 02 (AE) - De fervorosos "oviedistas" a unânimes "anti-oviedistas": assim o Paraguai passou em poucos meses de idolatrar o ex-general Lino César Oviedo, a execrá-lo como o pior dos Ditadores. As pessoas se retiram dos restaurantes onde entram os "oviedistas". Mas as reações não são só de repúdio formal: as rádios pedem a seus ouvintes que enviem "listas de indesejáveis", ou seja, os colaboracionistas do breve interlúdio.
Dezenas de simpatizantes já foram espancados por seus vínculos no passado recente com o ex-general, e calcula-se que pelo menos cinco mil funcionários públicos em cargos administrativos serão demitidos sumariamente.
Mas, como foi possível que um homem a quem centenas de milhares de paraguaios encaravam como o salvador da pátria pudesse se transformar no vilão da história? Nos sete dias que transcorreram entre o 23 e o 30 de março, os acontecimentos se precipitaram: foi assassinado o vice-presidente Luis María Argaña, inimigo político de Oviedo e do presidente Raúl Cubas Grau. Na sequência, manifestações diárias, que pediam a renúncia de Cubas Grau, foram reprimidas com violência pela polícia e franco-atiradores oviedistas. Após cinco mortos e mais de duzentos feridos graves, Oviedo fugiu do país e pediu asilo na Argentina. Quase simultaneamente, era a vez de Cubas Grau renunciar. Dois dias depois, o novo presidente do país, Luis González Macchi, anunciava um gabinete de "união nacional".
O especialista em comportamento social, José Nicolás Morínigo, disse à Agência Estado em Assunção que essa mudança de posição brusca e unânime se deve a que "o povo paraguaio, especialmente os setores populares, não tem uma experiência política profunda". O analista considera que Oviedo "sabia utilizar muito bem os símbolos populares", como o uso fluente do guarani.
Messiânico, Oviedo afirmava que era "um enviado de Deus", e grande parte da população chegou a acreditar nele. Mas, Morínigo afirma que "o assassinato de Argaña destruiu esse disfarce. Com essa morte, há um primeiro passo de dúvida em relação à sua liderança", diz.
"Seus partidários perguntaram-se: Teria ele ordenado o assassinato? Quando pediu a mobilização contra as manifestações pela destituição de Cubas Grau, seu afilhado político, seus partidários duvidaram em aderir. A presença dos franco-atiradores e a morte dos cinco jovens fez que os oviedistas repensassem seu apoio, que ameaçava acabar em golpe de Estado, ou pior, uma guerra civil", afirma o analista.
Oviedo agora está na Argentina, país cujo presidente, Carlos Menem, cultiva uma longa amizade com o ex-general. A relação entre Menem e Oviedo vem desde 1987, quando o argentino era governador da província de La Rioja e ocupava parte de seu tempo em rallys. Nesse ano, no rally Trans-Chaco, no Paraguai, onde Oviedo era o chefe de segurança da corrida, o guarda-costas de Menem morreu tragicamente.
Solícito, Oviedo encarregou-se pessoalmente do corpo. Em 1994, Martha Meza, deputada da província de Formosa que teve um filho com Menem em 1977, fugiu ao Paraguai por causa de ameaças de morte à ela e ao filho. Menem pediu que Oviedo fosse o encarregado de vigiar Meza e seu filho.
Na Argentina, Oviedo está instalado em um haras com mais de mil hectares de extensão. O proprietário é o empresário Arnaldo Martinenghi, amigo de Menem. O haras "La Madrugada" está na província de Buenos Aires, e até esta segunda-feira será vigiado por 60 policiais, quando passará a ser protegido pelo grupo "Albatroz", um corpo de elite da marinha.
Não se sabe até quando Oviedo ficará no haras, mas o general parece disposto a permanecer no país, já que sua esposa, a argentina Estela Marín, denominada de "La Leona" ("a leoa") pelos oviedistas em alusão à sua personalidade, já está procurando escola para seus filhos menores.
Em "La Madrugada", como qualquer líder político exilado com pretensões de voltar, Oviedo começou a receber seus aliados, que viajam incógnitos desde Assunção para receber diretrizes. O governo argentino avisou Oviedo que não poderia receber pessoas para reuniões políticas, mas o ex-general golpista, apelidado de "cavaleiro bonsai", em alusão à sua origem na cavalaria e sua pequena estatura, não lhe deu ouvidos.
Narco-traficante, ladrão, corrupto. Todos estes adjetivos são aplicados a Oviedo, mas o mais usado é o de "louco". O exemplo mais frequente é a derrubada do general Alfredo Stroessner, em 1986. Oviedo, na época um coronel da cavalaria, entrou na sala do Ditador com uma granada na mão e bananas de dinamite nas pernas. Ao retirar o Ditador do lugar, iria sair em uma caravana composta por dois tanques e um carro, onde levaria Stroessner. Oviedo ordenou aos soldados que se o carro saísse da escolta, era para atirar nele. "Mas assim o sr. também morreria", disse um deles. "Isso não importa. É para atirar para matar!", disse Oviedo.
A relação entre Oviedo e Cubas Grau sempre foi motivo de comentários entre a população paraguaia. Afirma-se que os dois foram colegas no Colégio Militar, e que ao terminar o curso, o pai do jovem Cubas Grau o enviou rapidamente a estudar no Brasil
onde se formaria em engenharia civil no Rio de Janeiro. O motivo da separação dos dois amigos teria sido causado pelas suspeitas do pai do futuro presidente de que entre os rapazes havia ocorrido algo mais do que simples camaradagem.
Segundo os políticos paraguaios, somente esse vínculo do passado poderia explicar como um homem ponderado como Cubas Grau poderia ter embarcado nas loucas ações de Oviedo, que acabaram por tirá-lo do poder. A ácida ironia paraguaia havia apelidado Cubas Grau, de "co-piloto", tanto por sua participação nesta função nos rallys paraguaios, como por ter sido o submisso subordinado de Oviedo.

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