Foz do Iguaçu, PR, 23 (AE) - O conflito entre agricultores brasileiros e sem-terra paraguaios pela posse de terras no interior do Paraguai pode gerar um problema diplomático de difícil solução. Esse temor foi manifestado hoje pelo presidente da Câmara dos Deputados do país vizinho, Efrain Alegre (PLRA). Integrantes do movimento dos trabalhadores rurais sem-terra do Paraguai estão invadindo as propriedades de imigrantes brasileiros, que dizem estar sendo vítimas de limpeza étnica. Cidades colonizadas por eles estão sob ameaça de invasão, como San Alberto, a 90 quilômetros da fronteira com Foz do Iguaçu (PR), que há três dias está sitiada.
"A solução precisa surgir com urgência", diz Alegre. O deputado disse que o governo paraguaio está estudando medidas para resolver o conflito agrário, mas antes quer saber de que forma essas disputas vêm ocorrendo e se as propriedades de brasileiros estão legalizadas.
Segundo ele, o Ministério do Interior já está fazendo um levantamento e só com essas informações o governo terá condições de garantir aos brasileiros todos os direitos adquiridos. "Não podemos e nem devemos discriminar ninguém", disse o deputado.
A discriminação, no entanto, estaria partindo da própria classe política. O presidente da Pastoral do Imigrante Brasileiro no Paraguai, Claudio Shuh, 58 anos, disse que as perseguições dos sem-terra paraguaios acentuaram-se nos últimos anos, por causa da crise social no país e de discursos político-nacionalistas. Há 23 anos morando no paraguai, ele lembra que na última campanha presidencial o general de reserva Lino César Oviedo -hoje exilado na Argentina- fazia discursos prometendo expulsar os brasileiros e passar as propriedades aos paraguaios, caso fosse eleito.
Os agricultores denunciam que os líderes do movimento dos sem-terra estão usando rádios piratas para promover uma limpeza étnica, incitando os paraguaios contra os imigrantes brasileiros. Foi assim que eles conseguiram mobilizar cerca de dois mil camponeses, que há três dias tomaram conta da cidade de San Alberto, onde cerca de 80% dos 23,5 mil habitantes são brasileiros e descendentes. Outras cidades vizinhas, também colonizadas por agricultores procedentes do Brasil, estão sob a mesma ameaça.
Os brasileiros começaram a migrar para o Paraguai no início da década de 70, atraídos pela promessa de terras férteis e baratas feitas pelo ex-ditador Alfredo Stroessner. Hoje com 21 anos, Elias Ferreira dos Santos era recém-nascido quando os pais mudaram-se para o vizinho país. Com outros dez irmãos, ele é dono de uma propriedade de 60 hectares, onde há pouco mais de um mês sofreram uma emboscada. Dois homens armados entraram no local e dispararam vários tiros contra a família. Santos sofreu várias ameaças de morte e teve de fugir. Acuado, ele espera uma solução das autoridades brasileiras e paraguaias para voltar com segurança para casa.
O mesmo drama viveu o agricultor Ivonei Ferreira, 23 anos, que há um ano e meio foi tentar a sorte no Paraguai. Parte da família dele vive há 12 anos na região de Porto Índio, na fronteira com Santa Helena (120 quilômetros de Foz do Iguaçu), onde tem uma propriedade de 46 hectares. Ferreira conta que há seis meses um grupo de 40 paraguaios armados invadiram, saquearam a propriedade e montou um acampamento no local. Sob ameaças de morte, toda a família teve de voltar para o Brasil.
Santos e Ferreira fizeram parte do grupo de 400 agricultores que montou um acampamento em Foz do Iguaçu e ontem (22) fechou a Ponte Internacional da Amizade por três horas. Entre outras reivindicações, eles querem proteção policial às famílias que tiveram suas propriedades invadidas ou estão sob ameaça de invasão, além da reintegração de posse das terras. Se não forem atendidas até segunda-feira, ameaçam com um novo fechamento da ponte.

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