Parabéns aos guardiões da saúde
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segunda-feira, 18 de outubro de 2010
Elaine Souza<br> Reportagem Local 
Nas universidades, o curso de medicina é sempre o mais disputado pelos vestibulandos. Para muitos, ser médico é uma profissão que remete a status e um futuro tranquilo. Quando se fala em medicina, logo vem à cabeça que os profissionais dessa área ganham rios de dinheiro e têm uma vida de prestígio. Pode ser, mas para uma mínima parcela. Para a grande maioria, a realidade é, antes de qualquer coisa, muito trabalho, renúncias, aflições e atualizações.
É preciso ter uma vocação legitimada para executar um trabalho instigante, desafiador, cheio de segredo - seja para o diagnóstico, cirúrgico, terapêutico. Além, é claro, de viver em permanente estado de solicitude, sem distinção de dia ou noite.
A cardiologista Maria Cristina Jacopetti Almeida é casada com médico, mãe de um futuro médico, irmã de uma médica e tataraneta do primeiro médico do Paraná, José Francisco Correa. Na adolescência ela até sonhava em ser diplomata. Com a insistência da irmã, entregou-se à faculdade de medicina. Hoje, são 25 anos de dedicação e amor a profissão. ''É uma paixão. Não me encaixo em outra coisa. Amo o que eu faço. Na cardiologia você vê a pessoa como um todo. Gosto muito de fazer prevenção''.
Atendendo cerca de 400 pacientes por mês, ela tem no diagnóstico o lado mais difícil de sua profissão e no contato com os pacientes a mais gratificante das realizações. ''Trabalhamos com evidências, e o grande desafio é chegar ao diagnóstico correto. Por outro lado, você vive diversas vidas e acaba tendo em cada paciente um amigo. Na medicina você também consola, alivia a dor. É um trabalho humanístico, que dentro dessa evolução da tecnologia, acabam esquecendo um pouco. Na medicina existe um certo sacerdócio'', explica.
Enfrentar um difícil e dispendioso curso de medicina foi a opção de Clodoaldo Zago Campos, 39 anos, 10 deles dedicados à oncologia. Entre as múltiplas vicissitudes encaradas no transcorrer dessa árdua profissão, ele, que atende em média 300 pacientes por mês, cita a falta de estrutura. ''Vivemos em um país carente de estrutura. Muitos pacientes chegam com um estado muito avançado da doença, e nos deparamos com o problema de estrutura e pessoal qualificado''.
Não há como não dar valor a pequenas coisas da vida, ser uma pessoa mais humana e humilde quando, diariamente, você se depara com pessoas que lutam para viver. Com isso, os médicos também precisam, acima de tudo, ter uma grande preparação emocional. ''Acho que toda pessoa deveria ser oncologista por um dia. É uma lição de humildade. Você atende pessoas jovens, velhas, que até pouco tempo atrás estavam bem de saúde, e que por algum sintoma acabam descobrindo ter uma doença que, em muitas vezes, já está em estado avançado. Quando isso acontece, todos os sonhos delas vão por água abaixo. É preciso ter muita estrutura para lidar com isso. Se não tiver uma preparação psicológica muito grande você não aguenta'', conta Clodoaldo.
Com uma vida embasada fundamentalmente em atenuar as adversidades mórbidas de seus pacientes, o clínico geral Sergio Canavese, 26 anos de profissão, é outro exemplo de dedicação, renúncia e responsabilidade. Por mês ele trabalha cerca de 280 horas, atendendo 900 pessoas. Médico do PSF (Programa Saúde da Família), Canavese define seu trabalho como gratificante e inovador. ''Tenho a oportunidade de ver o paciente de uma forma mais integral e mais próximo do seu local de residência, ver como e de que vivem as pessoas, entendendo melhor o processo saúde versus doença. Com isso podemos resolver em torno de 80% dos problemas de saúde nesse nível de atenção''.
Afora um ou outro que alcançaram posições de destaque, os médicos de hoje acumulam vários empregos. Isso em decorrência da remuneração irrisória que o sistema público paga e do número pequeno de pacientes que podem bancar um plano de saúde. Cavanesi alterna seus atendimentos entre as Unidades Básicas de Saúde da prefeitura, plantões no SIATE e SAMU, plantões noturnos por mês e plantões em finais de semana. O interesse por uma eventual lucratividade pecuniária não pode ser tida como fator principal na escolha dessa profissão. ''Médico precisa estudar muito, não pode estar atrasado. Se for fazer medicina faça por paixão. Não espere ficar rico trabalhando como médico. O médico é um servidor, ele se doa, o paciente está sempre em primeiro plano'', fala Maria Cristina, que atende em seu consultório e em centros de sáude.
Compartilhando da mesma opinião, Clodoaldo apenas completa: '' A vantagem do médico é que ele não fica sem emprego. Só que a remuneração está cada vez pior, tanto no sistema público quanto no privado. Para manter um salário razoável precisamos trabalhar cada vez mais. Até hoje não consigo me sustentar apenas com a oncologia''.


