Steve Biddulph trabalha como terapeuta familiar há 30 anos. Hoje ele vive na Austrália, mas já morou na Nova Zelândia, Ásia e Irlanda do Norte. Fez várias viagens a 27 países onde seus livros foram traduzidos, incluindo uma recente visita ao Brasil. Confira abaixo trechos da entrevista concedida à Folha:
Folha- No livro ''Momentos mágicos com seus filhos'' o senhor afirma que quando os pais conseguirem relaxar e se soltar, a capacidade de amar despertará naturalmente. Explique melhor isso.
Steve Biddulph- Cada um dos meus livros tem uma mensagem singela que é ampliada com muitas histórias e idéias práticas para ajudar as pessoas a levar avante suas obrigações. O livro ''O segredo das Crianças Felizes'' é sobre como ser positivo nos métodos usados e no amor. ''Por que escolhi você'' é sobre estar comprometido e resolver as dificuldades no casamento, em vez de fugir da situação. ''Momentos mágicos com seus filhos'' estuda a disciplina e a importância do fator tempo para que o amor cresça. ''Criando Meninos'' trata da conscientização do projeto de um novo tipo de homem, que começa com os meninos para o surgimento de um homem amoroso e, ao mesmo tempo, protetor e criativo. ''Por que os homens são assim'' é sobre a necessidade de os homens se transformarem em seres completos. Não apenas máquinas de trabalhar, mas que sintam amor pelas pessoas e estejam engajados na melhora da nossa sociedade.
Folha Com base no trabalho desenvolvido com as famílias, quais os principais fatores que prejudicam o relacionamento familiar?
Steve Biddulph- A perda da noção de comunidade, o materialismo e a ambição são os maiores inimigos das famílias nos países desenvolvidos. Então, o elemento justiça social recebeu cada vez mais importância nos meus livros: dizer aos ricos que deveriam viver com menos e deveriam fortalecer os seus laços com a sociedade.
Folha- O senhor acha que o consumismo é um dos fatores para a desagregação familiar?
Steve Biddulph- Há uma monumental mentira que vem com a globalização e a forma de vida do capitalismo, que dita: dinheiro e propriedade de mais coisas trazem felicidade. Agora, na medida em que as pessoas saem do nível de pobreza, elas são mais felizes, mas não tarda e também a felicidade lhes é retirada. Pesquisas importantes demonstram que, na verdade, o aumento da renda acima de um nível modesto reduz a felicidade. As pessoas vivem cada vez com mais medo, o que é bem característico nos Estados Unidos de hoje. É a terra do medo. Reconhecem que têm muito, e receiam a inveja e o ódio alheio.
Folha- Seguindo a linha adotada em seus livros, o senhor seria capaz de definir o segredo para um bom relacionamento?
Steve Biddulph- A felicidade advém dos relacionamentos sociais. De não só ter uma família que o ama e adora estar junto, mas do fato da sua família ter ligações com outras famílias, de pertencer a uma ampla rede de amigos e grupos de pessoas que se dão ajuda recíproca no dia a dia. Assim, uma plantação comunitária, uma ação voluntária na escola da região, idosos se relacionando com crianças, homens trabalhando em prol do meio ambiente, adolescentes recebendo orientação de adultos em vez de estarem à toa e serem levados ao crime e às drogas. Tudo isso constrói uma comunidade em que as pessoas são fortes, saudáveis e felizes.
Folha -Temos visto cada vez mais a desestruturação familiar. A que o senhor atribui isso?
Steve Biddulph- Essa não é a mensagem que a televisão ou as revistas retratam e, então, as pessoas vão pelo caminho errado, seguem objetivos inadequados. Trabalham para ganhar rios de dinheiro, preocupam-se com o estilo do cabelo e das roupas, e negligenciam os filhos que passam a odiá-las e arrastam-se para as drogas e outros problemas.
Folha- O senhor critica a postura dos pais que estão trabalhando demais para pagar a casa, o carro, a escola cara, e não podem desfrutar a vida. O senhor acha que os pais vão mudar essa visão de consumo e aprender a viver de modo simples e feliz?
Steve Biddulph- Os brasileiros parecem ser mais felizes que os ingleses e americanos, apesar da imensa pobreza. É possível que estejam ancorados naquilo que é importante. Ao se acrescentar mais justiça social e oportunidades, o essencial é que essas tenham a feição brasileira, e não se trata apenas de carrões e mansões. Mantenham os laços comunitários, o amor à comida e à música e ao estar juntos. Convivam bem com os filhos e vivam de forma criativa.L.M.

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