Para Unesco, bioética deve olhar para o social
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quinta-feira, 23 de abril de 2015
Antoniele Luciano<br>Reportagem Local 
Londrina Estimativas da Organização Mundial de Saúde (OMS) alertam para o problema do aborto: uma brasileira morre a cada dois dias no País em decorrência do procedimento feito de maneira ilegal. O assunto, tema de debates acalorados entre grupos que apoiam a descriminalização da prática e também contrários à medida, está entre as situações envolvendo bioética que mais geram questionamentos no exercício da Medicina. É o que relata a médica intensivista Susana Vidal, especialista da Unesco (Organização das Nações Unidas para Educação, Ciência e Cultura) no Programa de Bioética e Ética da Ciência para América Latina e Caribe. Ela esteve em Londrina ontem, participando do II Seminário Internacional de Bioética da Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUC-PR).
Segundo a especialista, além da interrupção da vida ainda no útero materno, as questões que geram mais discussão na classe médica costumam ter uma ligação estreita com o início e o fim da vida. "No início da vida, são os temas relacionados à reprodução, fertilização in vitro, o que será feito com os embriões depois. No caso do fim da vida, há os testamentos vitais e a questão da morte digna, se as pessoas têm direito ou não de decidir se querem receber tratamento ao final da vida", comenta.
No caso dos testamentos vitais, dados do Colégio Notorial do Brasil apontam que a procura por esta modalidade de declaração vem crescendo no País. Entre 2009 e 2014, o número passou de 26 para 542, quase 2.000% a mais. O documento, na prática, orienta o médico sobre o que o paciente está disposto a ser submetido, caso seja necessário intervenção médica. "O limite entre a liberdade das pessoas e os deveres da medicina é o direito da vida frente à liberdade do indivíduo. Vamos encontrando caminhos sobre isso, mas com muitas dificuldades", pondera.
SENSIBILIDADE
Conforme Susana, é importante considerar que as discussões da bioética abrangem não só situações médicas, mas sociais e globais. Um exemplo disso, cita, são problemas que afetam partes importantes do planeta e que poderiam ser evitados, como a fome e guerras. "A sensibilidade médica deve estar impactada por questões que afetam a humanidade. Não se pode ser ignorante, indiferente ao que se passa em outras partes do mundo. Neste mundo, não se pode ser global apenas para o mercado. Tem que ser global também para o que nos preocupa em termos de valores e em termos de produção para uma vida melhor", sustenta.
É neste ponto que a especialista defende uma formação integral dos profissionais de saúde, com atenção, inclusive, para o que está fora dos consultórios médicos. O programa de Educação em Bioética da Unesco, assinala, busca oferecer um currículo básico para as universidades da área, de acordo com a Declaração de Direitos Humanos, a ser implantado também na PUC-PR. Há ainda um programa de educação permanente à distância oferecido pela Unesco, com turmas de ética clínica e social e de ética de investigação. A disseminação da bioética na educação, reforça, é importante porque há diversas situações científicas e tecnológicas que necessitam de decisões no dia a dia. "Mas temos que ver que o desenvolvimento nem sempre é progresso", diz.


