Para Summers, inflação pode exigir aperto fiscal Do correspondente Paulo Sotero
Washington, 01 (AE) - O secretário do Tesouro dos Estados Unidos, Lawrence Summers, que fará uma visita de dois dias ao Brasil esta semana, foi diplomático ao falar dos sinais recentes do aumento dos preços no País, antes de iniciar a viagem. "Indicações de inflação em alta são uma preocupação em qualquer lugar", disse ele, em entrevista à Agência Estado.
"Quando ocorrem, as autoridades devem reconhecê-las como tal, (pois) elas apenas apontam para a necessidade de maiores esforços no sentido de manter a disciplina fiscal e monetária", afirmou.
Mas as más notícias recentes sobre a inflação não parecem ter alterado a avaliação cautelosamente positiva que Summers passou a fazer sobre a economia brasileira ante a surpreendente capacidade do País para absorver o choque da desvalorização da moeda sem mergulhar na profunda recessão que se chegou a prever e a temer no início do ano, em Brasília e em Washington.
"As autoridades brasileiras podem tirar considerável satisfação do fato de que uma situação que parecia muito precária há apenas dez meses foi contida, numa medida significativa."
Como principal arquiteto da estratégia dos EUA para enfrentar a grave crise financeira que ameaçou a economia mundial após a quebra de vários países asiáticos, em 1997, Summers certamente comparte dessa satisfação. A ameaça de ressurgirmento da crise financeira global no fim de 98, a partir do Brasil - possibilidade que levou os EUA e o Fundo Monetário Internacional (FMI) a montar uma operação preventiva para proteger o País do contágio da crise, antes da mudança do regime cambial - provavelmente teria impedido Summers de realizar seu sonho de substituir Robert Rubin no Tesouro.
No cargo há cinco meses, Summers disse que espera "ter uma conversa ampla sobre a situação econômica brasileira com o presidente Fernando Henrique Cardoso, o ministro (da Fazenda) Pedro Malan e o governador (do Banco Central) Armínio Fraga", no Rio. Sua primeira escala, porém, será em São Paulo, onde chegará na sexta-feira, depois de visitar a Argentina e a Bolívia.
Num encontro com empresários, organizado pela Câmara Brasileira-Americana de Comércio, o secretário do Tesouro indicou que usará a extraordinária prosperidade que os EUA vivem hoje para enfatizar a importância de uma política econômica saudável e, dessa forma, incentivar o mundo dos negócios a apoiar a continuidade do programa de reformas econômicas estruturais do governo brasileiro.
"Direi que os fundamentos de nossa economia estão sólidos e são impulsionados por uma alta capacidade de criação de investimentos produtivos", disse. "Esse é um importante pré-requisito para o crescimento no futuro."
Ele deverá sublinhar a importância da disciplina fiscal para a prosperidade atual dos Estados Unidos. "Não há dúvida de que nosso êxito em obter saldos orçamentários foi uma importante contribuição para o sucesso econômico no sentido mais amplo", disse.
"Ele liberou trilhões de dólares, literalmente, para investimentos produtivos em unidades industriais e equipamentos para os trabalhadores americanos e em casas próprias para as famílias norte-americanas, que, de outra maneira, teriam ido financiar o ativo estéril da dívida do governo."
Summers voltou ao tema ao falar sobre as razões por trás da retomada econômica na ásia, que com a exceção da Indonésia, superou a crise e voltou a crescer com mais vigor do que a América Latina, embora tenha sofrido um baque muito mais severo.
"Em parte, isso se deve à própria magnitude da crise - maior, na ásia em comparação com o impacto na América Latina", disse. "Mas, em parte, tem a ver também com as altas taxas de poupança e de acumulação de capital na ásia e com o maior sucesso daquelas populações em universalizar a educação."
Com as discussões para o lançamento de uma nova rodada de liberalização do comércio mundial num impasse na reunião ministerial da Organização Mundial de Comércio, em Seattle, Summers renovou a defesa americana da abertura dos mercados.
Ele disse que o encontro em Seattle deve concentrar-se "em tirar proveito das oportunidades que a globalização oferece, mas
ao mesmo tempo, ajudar a prevenir riscos, pois, como disse o presidente Clinton, a integração econômica não pode avançar se interresses e pessoas forem deixadas para trás".
"Há poucas coisas mais importantes para explicar o sucesso da economia mundial no pós-Segunda Guerra Mundial do que o progresso contínuo na direção de mercados mais abertos", afirmou. "E creio que há poucas questões mais importantes para o século 21 que a continuação desse progresso." Para Summers, as manifestações de sindicatos e grupos cívicos nas ruas de Seattle em favor do reconhecimento pelos governos dos vínculos entre comércio e os direitos laborais e a proteção do meio ambiente mostram que "a questão não é se a OMC terá parte da discussão global sobre a relação entre a integração econômica e outros valores-chaves, mas qual é o papel da OMC: observador ou participante construtivo".
Perguntado sobre o processo de escolha do sucessor de Michel Camdessus na direção do FMI, foi lacônico, mas não o bastante para deixar de sugerir que Washington está aberta para a apoiar um candidato de fora da Europa, que por tradição nomeia o ocupante do cargo. "Sobre isso, quero dizer apenas que acredito que é muito importante ter o candidato mais forte possível", disse Summers.





