Para sindicato, PDV é demissão sutil
Empresas públicas e privadas têm adotado o Programa de Demissão Voluntária (PDV) para enxugar seus quadros de funcionários. As instituições bancárias estão entre os setores que mais têm adotado o programa. Para o diretor do Sindicato dos Bancários de Londrina, Paulo Lima, o PDV é uma forma indireta de demitir e promover substituições por mão-de-obra mais barata.
Segundo Lima, que é funcionário do Banco do Brasil, os funcionários acabam sofrendo uma pressão para aderir ao PDV. Por trás das propostas atraentes ofertadas pelos bancos, acontece um processo psicológico sutil que leva o funcionário a retirar de seu coração a empresa em que trabalha, comenta.
Pelo PDV, o funciário recebe indenizações e benefícios que não teria em uma recisão de contrato normal, em caso de demissão sem justa causa. No entanto, Lima afirma que esta compensação ofertada acaba levando o funcionário a acreditar que vai conseguir viabilizar uma nova fonte de renda que lhe garanta o mesmo padrão de vida que tinha antes de deixar o banco. Temos inúmeros casos de pessoas que deixaram o Banco do Brasil e hoje estão em uma situação difícil. Muitos entram em desespero, a ponto de acabar com a própria vida, diz. O sindicalista observa que no caso do Banco do Brasil, um levantamento indica que desde o início do programa em todo o País foram registrados 12 suicídios entre os funcionários que aderiram ao PDV.
Mas nem todos que aderiram ao programa de demissão volutária tiveram problemas após deixar o emprego. Existe vida fora do banco, atesta o ex-funcionário do Banco do Brasil, Carlos Eduardo Sardi, que hoje trabalha em seu próprio escritório de advocacia. Ele admite no entanto que sentiu uma certa angústia depois que deixou o emprego. Mas isso era natural, já que estava no banco há quase 20 anos.
Sardi afirma que na época em que aderiu ao PDV já tinha outra profissão, o que acabou lhe ajudando a superar a sensação de não-saber-o-que-fazer. Como já tinha escritório, então não senti tanta pressão do mercado do trabalho. Mas muitos colegas que aderiram ao programa não tiveram a mesma sorte. Alguns estão em dificuldades, diz.
A gente se sente apenas mais um número, uma coisa. Esta foi a impressão que a ex-funcionária do Banestado, Hellis Regina de Souza, teve depois de aderir ao PDV do banco. Ela afirma que, logo após a privatização do Banestado, o atual dono da instituição, o Banco Itaú, passou a promover reuniões com grupos de funcionário e individualmente para convencê-los a aderir ao PDV. Era muita pressão. Eles diziam nas reuniões que a gente deveria pensar bem no que iríamos fazer no futuro, porque teriam de enxugar o quadro de qualquer forma, comenta.
Hellis afirma que acabou aderindo ao PDV para não acabar sendo demitida. Não foram as propostas que me convenceram. Mas ao aderir ao PDV a gente pelo menos tem a sensação de estar saindo da empresa com a cabeça erguida. Não queria chegar um dia no banco e ser simplesmente comunicada de que a empresa não necessitava mais de meus serviços, diz.
Depois de trabalhar 13 anos no Banestado como escriturária, Hellis, que deixou o banco em junho passado, afirma que só agora está caindo na realidade de sua atual situação de desempregada. No primeiro mês parecia estar em férias, e como estava fazendo um curso de informática, não percebia a falta do emprego. Mas agora acho que vou viajar para me desligar um pouco, afirma.
Quanto ao futuro, a ex-bancária diz que investiu o dinheiro que recebeu de sua rescisão de contrato em uma chácara. Estou pensando em produzir alguma coisa lá, planeja. (Guto Rocha)





