A população não precisa ficar alarmada, mesmo diante da divulgação de que novos casos da doença de Chagas por ingestão de alimentos, dessa vez no Amapá, somaram-se aos registrados em Santa Catarina. A afirmação é do professor de parasitologia da Universidade Estadual de Londrina (UEL) Itagiba Geraldo Moretti, que há mais de 30 anos pesquisa o assunto.
''São casos anômalos, que acontecem esporadicamente. O surto em Santa Catarina foi uma aberração da natureza. É normal que agora, quando se está falando muito sobre o assunto, comecem a chegar informações sobre casos isolados ocorridos em outros locais, como o do Amapá. Mas não há motivo para alarme'', garantiu Moretti.
O professor explica que há cerca de dez anos, quando o barbeiro já estava praticamente erradicado do País em função de uma grande campanha profilática do governo, houve reincidência do mal de Chagas em várias regiões. ''O problema é que doença ficou em segundo plano, em detrimento de outras moléstias que estavam ocorrendo com mais intensidade à época e precisavam ser controladas, como a dengue. Com isso houve uma nova proliferação do barbeiro, inclusive em locais em que não havia antes'', assinalou.
Esta proliferação, entretanto, ocorreu apenas nos espaços propícios ao aparecimento desse tipo de inseto: áreas de mata que deram lugar a novas cidades, além de ranchos e casas de condições precárias, como as de pau-a-pique e chão batido. Moretti afirma que é muito improvável que o barbeiro seja encontrado no ambiente urbano em locais com um mínimo de higiene. Por isso, considera desnecessário e até perigoso que haja uma campanha orientando a população a identificar o inseto. ''Há muitos artrópodes semelhantes ao barbeiro, e isso poderia causar confusão e pânico nas cidades'', ressaltou.
No caso do surto catarinense, causado pela ingestão de caldo de cana, o pesquisador acredita que havia focos do barbeiro nos canaviais, possivelmente em ninhos de tatu - bicho de cujo sangue o inseto se alimenta. O barbeiro teria defecado na parte externa da cana, que foi moída com exemplares ainda vivos do Trypanosoma cruzi, protozoário responsável pela doença de Chagas. Para explicar os casos registrados no Amapá, Moretti lembra que há barbeiros que habitualmente vivem em coqueiros, de onde saem as frutas do açaí.
''Seria interessante que se fizesse um novo mapa epidemiológico no Brasil para se saber quais são os locais onde o barbeiro está mais presente hoje. Embora esse novo surto tenha sido uma fatalidade, foi um excelente recado para que não descuidemos da doença'', conclui. Como medida preventiva, o professor defende que os órgãos de Vigilância Sanitária, inclusive em Londrina, façam um levantamento das áreas de risco, tanto na zona rural quanto na urbana (em favelas e cortiços, por exemplo), aplicando inseticida onde for necessário.

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