Para os EUA, Cimeira não terá resultados significativos
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sexta-feira, 25 de junho de 1999
Por Paulo Sotero (correspondente) 
Washington, 26 (AE) - Até algum tempo atrás, o menor sinal de interesse da Europa pela ampliação de sua fatia do mercado na América Latina era usado como munição pelos encarregados da política de comércio exterior dos Estados Unidos para tentar convencer o Congresso americano a aprovar o mandato especial fast track que o Executivo necessita para negociar com credibilidade acordos de liberalização com outros países.
Era de se esperar, portanto, que o primeiro encontro de líderes da Europa e da América Latina, esta semana, no Rio, e a perspectiva de lançamento de negociações de um pacto comercial entre a União Européia e o Mercosul realimentassem, na administração Clinton, o argumento da cobiça do principal competidor dos EUA pela região que os americanos contumam chamar de seu "quintal". Mas a Cimeira do Rio provoca apenas bocejos em Washington.
Não se trata de uma atitude estudada de ignorar um evento que o governo americano não deseja valorizar, porque o considera uma ameaça potencial a seus interesses, especialmente diante da falta do mandato fast track da administração para seguir adiante com as negociações da área de Livre Comércio das Américas (Alca).
Embora a ausência do fast track ou de qualquer chance realista de obtê-lo do Congresso nos 18 meses que restam da atual administração possa ter inibido manifestações americanas sobre o encontro, fontes oficiais e do setor privado disseram que o silêncio dos EUA em relação à reunião reflete o cálculo oposto, ou seja, que, apesar de toda a pompa e circunstância, a Cimeira do Rio não terá resultados significativos e não é, por isso, motivo de preocupação.
Num raro comentário público sobre a reunião, o subsecretário internacional do Comércio, David Aaron, manifestou recentemente a esperança da administração Clinton de que os líderes latino-americanos, particularmente os dos países do Mercosul, usem o anúncio do lançamento de negociações futuras de um acordo de liberalização comercial com a União Européia "para insistir na abertura do mercado agrícola europeu" - um objetivo que compartilham com os Estados Unidos.
Distorção - Na semana passada, a encarregada da política de Comércio Exterior da Casa Branca, Charlene Barshefsky, e o secretário de Agricultura, Daniel Glikman, sublinharam esse ponto em depoimento à Comissão de Agricultura da Câmara de Representantes sobre a agenda da administração para a Rodada do Milênio, um novo esforço de liberalização do comércio internacional que será lançado na próxima reunião ministerial da Organização Mundial do Comércio (OMC), em Seattle, no início de dezembro.
Sem referir-se uma única vez à Cimeira do Rio ou ouvir perguntas a respeito pelos deputados, Barshefsky disse que a Política Agrícola Comum da União Européia (PAC) será "o principal foco" na nova rodada. Barshefsky lembrou que a PAC, que é sustentada com US$ 60 bilhões em subsídios por ano, ou 85% dos subsídios às exportações agrícolas em todo o mundo, "é a maior distorção do comércio agrícola internacional e talvez se qualifique como a maior distorção de qualquer tipo de comércio".
Enfoque - Se o objetivo dos líderes do Mercosul é obter improváveis concessões na PAC, um assunto politicamente explosivo que divide a Europa, em Washington acredita-se que os próprios líderes europeus vêem a Cimeira do Rio mais como uma oportunidade para aprofundar relações políticas e melhorar suas comunicações com a América Latina. "O fato de a União Européia ter aprovado um mandato de negociação só a partir de 2001, sem uma data para conclusão, e estabelecido a Rodada do Milênio como limite para o que for negociado com o Mercosul sugere que os europeus não parecem muito interessados nessa negociação", disse Thomas OKeefe, do Mercosul Consulting Group, em Washington.
Esse mesmo cálculo predomina no governo Clinton. Para os formuladores da política de comércio exterior dos EUA, um acordo com o Mercosul não está entre as prioridades da União Européia e vem depois de outros negociações mais importantes, por razões econômicas, políticas e estratégicas, tais como a resolução de disputas comerciais com os EUA, a negociação de acordos multilaterais de comércio no âmbito da OMC e a expansão do comércio com os países da Europa Central que já iniciaram o processo de transição para se tornar membros plenos da UE no futuro.
Os funcionários de Washington acham também que as crises econômicas no Brasil e na Argentina aumentaram as dúvidas dos europeus sobre os benefícios que um acordo comercial com o Mercosul traria. Além disso, e mais importante, eles lembram que os negociadores europeus já indicaram que a Rodada do Milênio é mais importante do que possíveis acordos regionais.
Outro lado - Tampouco para o Mercosul a negociação de um acordo com a UE é assunto premente, estimam os americanos. Funcionários lembram que o próprio governo brasileiro já declarou repetidas vezes nos últimos anos que uma nova rodada de negociações no âmbito da OMC teria precedência. Na avaliação de Washington, a crise financeira e seus efeitos tornaram mais urgente para o Mercosul ampliar e fortalecer os laços comerciais entre os próprios países que o compõem e levar adiante o plano de coordenação de políticas macroeconômicas que seus líderes anunciaram recentemente, com vistas à criação futura de uma moeda comum, do que investir energias num acordo de liberalização comercial com a UE.
Assim, na visão americana, a Cimeira do Rio pode representar um tento diplomático para o Brasil e o Mercosul, mas não alterará a realidade. Esta manterá a aliança que já existe entre o Mercosul, os EUA e outros grandes produtores agrícolas para alcançar o principal objetivo da Rodada do Milênio, que é convencer a UE a mudar sua política agrícola e abrir seus mercados.


