Tóquio (AE-AP) - Ele chega tarde, embriagado depois dos drinques obrigatórios com o chefe, e vai para a cama. O dia dela é todo ocupado com a casa e as crianças e com hobbies que ele dificilmente conhece.
Os anos passam e depois de as crianças terem ido embora e com a aproximação da aposentadoria eles encaram o futuro e não vêem sonhos compartilhados, exceto o de viver separados.
Assim como as taxas de criminalidade, ter uma incidência menor de divórcios do que os EUA e outras nações do ocidente já não é visto pelos japoneses como um exemplo da estabilidade social e da harmonia no seu país.
Mas um agudo aumento do número de divórcios entre os japoneses idosos está agitando esta crença, e especialistas estão preocupados com a possibilidade de que isso possa ser a evidência dos custos sociais de décadas de devoção total voltada ao trabalho, que fez o milagre econômico do pós-guerra possível.
"Casais de idosos estão chegando à idade da aposentadoria sem nunca terem tido uma boa conversa", diz Nobuo Kurokawa, um médico que se especializou no estresse do casamento. "Passar algum tempo junto torna-se uma grande dificuldade".
Entre 1973 e 1997, o número de divórcios por ano entre casamentos ocorridos há mais de 30 anos aumentou mais de oito vezes, de 820 para 6.709, informa o Ministério da Saúde. O número geral de divórcios no mesmo período dobrou, de 111.877 para 225.635.
A tendência dos japoneses de divorciarem-se continua menor do que a dos norte-americanos. Quase metade dos casamentos nos EUA terminam em divórcio, número que é de cerca de um terço no Japão.
Especialistas estão alarmados, contudo, porque o índice de divórcios está crescendo mais rápido entre os casais idosos do que entre qualquer outro grupo.
"Nos casos em que o marido é o provedor e a mulher fica em casa, a possibilidade de divórcio em idade avançada é muito alta", diz Hiromi Ikeuchi, que faz aconselhamento de casais.
A aposentadoria leva muitos dos casais idosos japoneses para um território desconhecido de preenchimento de horas do dia na companhia do outro. Kurokawa deu um nome para isso: síndrome do estresse do marido que fica em casa.
"A mulher começa a desenvolver desordens nervosas e a apresentar todo tipo de sintomas físicos psicossomáticos", diz ele. "Muitas chegam até a tentar o suicídio".
Regras centenárias sobre os papéis dos homens e das mulheres persistiram para o bem da reconstrução nacional depois da Segunda Guerra Mundial até que a prosperidade interferiu, transformando os valores da sociedade. Mas essa mensagem não foi compreendida por muitos dos japoneses que estão envelhecendo e confundiu os "homens assalariados", como são conhecidos os executivos.
"Os homens japoneses não podem manter-se sobre seus próprios pés", diz Yasuko Seino, esposa de 63 anos, que é casada com um ex-executivo. Quando meu marido estava atrasado para o trabalho eu tinha até mesmo que calçar nele as meias".
"Depois que ele se aposentou, esperava que eu continuasse a fazer todo o serviço da casa. Mas eu não sou uma secretária e nós, supostamente, somos parceiros", conclui.
A tradição de um dos filhos, geralmente o menino mais velho, de tomar conta dos pais durante a velhice está se tornando um anátema para as gerações mais jovens de japoneses. Deixados a própria sorte, muitos casais idosos tornam-se mais solitários juntos do que quando passavam a maior parte do dia separados.
O dilema é destacado pela resposta que Ikeuchi ouve quando pergunta a uma mulher o tipo de pessoa que seu marido é. "A reação imediata delas é dar a denominação do seu trabalho ou seu nível. Mas quando eu pergunto quais são seus interesses ou o que o preocupa, elas não sabem o que dizer", conta ela.
A maioria dos divórcios entre casais idosos é de iniciativa das mulheres, mas os homens estão cada vez mais descobrindo que querem arrumar as malas depois de décadas de vida a dois.
Na sociedade, para a qual a província masculina tem sido tradicionalmente o local de trabalho enquanto a mulher domina a casa, os homens geralmente aposentam-se e descobrem-se dominados em todos os aspectos da vida.
A alta proporção de divórcios entre os idosos no Japão é também relacionada ao que continua a ser um dos mais cultivados valores japoneses: "Gaman", ou apenas suportar. "Uma das particularidades do divórcio no Japão é que muitos casais apenas toleram um ao outro até que as crianças cresçam", diz Kurokawa.
E ele acredita que há muito mais casamentos fracassados entre os casais idosos do país do que os números dos divórcios revelam. Mas, quando chega o tempo em que eles cumpriram suas obrigações e sentem-se livres para separarem-se, muitos simplesmente já não têm a energia para fazê-lo, completa.
Kurokawa fez uma lista de checagem para casais idosos e as perguntas são duras: Sua esposa parece deprimida quando você está em casa? Seu marido é do tipo que não ouve? Mais e mais casais idosos estão procurando aconselhamento para salvar seus relacionamentos, algo que não aconteceria algumas décadas atrás. Alguns descobrem interesses comuns ou hobbies e aprendem a comunicar-se.
Seino, por exemplo, recentemente persuadiu seu marido a dividir parte do trabalho doméstico e a estudar inglês com ela. Mas, para muitos, é muito tarde para recomeçar.