A coordenação regional do Movimento dos Sem Terra (MST) classificou ontem como ‘‘laranja da Polícia Militar’’ um casal apresentado na tarde de sábado no 6º BPM de Cascavel, para denunciar violência e muitas armas de fogo no acampamento de sem-terra da área conhecida como ‘‘Bacia’’, do Imóvel Rio Iguaçu, de propriedade da empresa Araupel, em Quedas do Iguaçu (sudoeste do Estado). Nem todos os veículos de comunicação foram chamados para a entrevista com o casal – a Folha não foi avisada, e a versão foi de que houve ‘‘esquecimento’’.
Segundo o coordenador do MST José Antonio Custódio, de Laranjeiras do Sul, a PM usou Jovelino Alves da Silva, 61 anos, e sua mulher, Maria, 50, ‘‘dentro de sua estratégia de desmoralizar o MST’’ e para ‘‘justificar sua truculência contra os sem-terra’’ – na ‘‘Bacia’’, ocupada desde o ano passado, a reintegração de posse pode ocorrer a qualquer momento e é considerada operação de alto risco porque há 1,2 mil famílias acampadas. Para o comandante do 6º BPM, as afirmações do casal ‘‘comprovam informações sobre a agressividade dos sem-terra daquele local’’.
Jovelino e Maria da Silva disseram ter ‘‘conseguido fugir’’ do acampamento. Eles próprios teriam tomado a iniciativa de procurar a PM para relatar que, além de violências praticadas por coordenadores e outros acampados, inclusive estupros contra jovens, há armas de vários calibres entre os sem-terra, que estariam orientados pelos coordenadores para resistir caso a PM tente o despejo. O MST levantou ontem informações sobre o casal: segundo um dos coordenadores estaduais Rogério Mauro, ele ‘‘pode ter-se infiltrado no assentamento’’.
A especulação considera o fato de Jovelino já ter recebido lote do Incra, em 86, no Assentamento Xagu, em Nova Laranjeiras, e o abandonado em 92. ‘‘Portanto, o Incra não lhe destinaria outro lote e ele sabe disto’’, acrescentou Gilmar Mauro, estranhando ‘‘a motivação que ele teria para ir para um acampamento’’ – o coordenador assegura que o MST desconhecia o histórico de Jovelino. Para Gilmar Mauro, ‘‘usar laranjas, como neste caso, é apenas uma das práticas da estratégia nacional de tentar isolar o MST da sociedade’’.
O MST conseguiu a libertação, ontem à tarde, de nove sem-terra que haviam sido presos pela PM, após a desocupação da Fazenda Solidor, em Espigão Alto do Iguaçu, onde estavam 36 famílias. Eles foram indiciados pela Polícia Civil na Lei de Segurança Nacional (LSN), supostamente por resistência à ordem judicial de reintegração de posse – caberá ao Ministério Público opinar pelo definitivo enquadramento na LSN. A libertação foi obtida mediante pagamento de fiança, de R$ 500,00 para cada preso. Só não foi libertado Maurílio Borges (não indiciado na LSN), porque ele responde processo por furto.

mockup