Para jovens adultos japoneses, viver com os pais é um prazer
Para jovens adultos japoneses, viver com os pais é um prazer9/Mar, 11:59 Por Chisaki Watanabe Tóquio (AE-AP) - Eriko Komatsu sabe que tem uma boa vida. Seu salário pode ser pequeno, mas vai todo diretamente para jantares em restaurantes da moda, aulas de culinária e de arranjos florais, jogos de golfe nos finais de semana e férias no exterior. Ela dirige uma BMW, não paga aluguel, não lava suas roupas e dificilmente faz algum tipo de limpeza. E se não estiver comendo fora, suas refeições são gratuitas. Komatsu, que tem 35 anos, pertence a uma fatia da população que os observadores do estilo de vida japonês apelidaram de "os solteiros parasitas". E apesar da designação ser um pouco grosseira, Eriko e milhões de outros como ela não viveriam de outro jeito. "Eu nunca pensei em deixar a casa dos meus pais", diz Komatsu. "Por que eu deveria?" Esta é uma pergunta que muitos no Japão estão fazendo. Estima-se que 10 milhões de japoneses, entre 20 e 34 anos, dentre eles 60% de homens solteiros e 80% de mulheres não casadas, vivam com seus pais. Masahiro Yamada, professor-adjunto de sociologia da Universidade Gakugei em Tóquio, colocou o assunto em evidência nacional com seu recente bestseller "A era dos solteiros parasitas". Yamada diz que o número de solteiros vivendo com seus pais provavelmente mais do que dobrou nos últimos dez anos e vê esta tendência como um mau agouro para o futuro do Japão. "Essas são pessoas que continuam dependentes de seus pais para as atividades básicas de sua vida mesmo depois de terem atingido a idade adulta", argumenta. "Eles não estão cientes de que estão levando um estilo de vida que é superior ao que seus salários podem bancar". O fenômeno não é completamente exclusivo do Japão, claro. Itália, Espanha e Coréia do Sul também têm uma alta porcentagem de adultos morando com os pais, lembra Yamada. Mas a idéia tem uma lógica que atinge um ponto particularmente caro aos japoneses. Em primeiro lugar, há a situação da moradia. No centro de Tóquio, o aluguel de um apertado apartamento, de um dormitório, fica em torno de 80 mil ienes (US$ 734) por mês. Este é um gasto considerável para um jovem. E apesar de algumas grandes empresas terem dormitórios para empregados solteiros, a vagarosa economia japonesa está forçando companhias menores a cortar ou congelar seus auxílios-moradia, fazendo da casa dos pais uma opção mais do que atraente. Mais importante, porém, é o fato de que sair da casa dos pais não é visto como um necessário rito de passagem no Japão e há também pouco ou nenhum estigma em viver com eles. Para mulheres solteiras, na verdade, viver com os pais até pouco tempo atrás era quase um requerimento social. Até a última primavera, as companhias geralmente colocavam em seus anúncios que apenas as mulheres que vivessem com seus pais seriam contratadas. Uma lei de igualdade de sexos proibiu este tipo de pedido em abril. Já para os homens, a tradição japonesa diz que o filho mais velho deve permanecer na casa dos pais mesmo depois do casamento para assumir o papel de chefe da família e, mais tarde cuidar da mãe e do pai quando envelhecerem. Os economistas não estão convencidos de que a filosofia dos solteiros que permanecem na casa dos pais seja um fator negativo para a nação. Yuji Fukuda, diretor de pesquisa do Instituto Dentsu de Estudos Humanos, disse que mesmo se os que permanecem em casa se mudassem, não haveria um benefício significante para a economia. "A única mudança seria com o que eles gastam seu dinheiro", disse ele, lembrando que eles alimentam um mercado para itens de luxo tais como DVDs e outros produtos de preços altos . Ainda assim, Yamada diz que é responsabilidade dos adultos viverem sozinhos e é responsabilidade de seus pais mandá-los embora do ninho quando chega a hora certa. Mas muitos pais escolhem não tomar esta atitude, diz ele, porque sobreviveram aos duros tempos depois da Segunda Guerra Mundial e não querem que seus filhos passem pelas mesmas dificuldades que eles tiveram. Shigeko Ohashi, uma dona de casa de 50 anos, concorda que sua filha solteira pode não ser particularmente independente mas defende sua escolha da mesma forma. "Há coisas como moradia e transporte que precisam ser consideradas", diz ela. "Saindo da nossa casa, ela chega ao trabalho em 30 minutos". E além disso, Ohashi diz, ela gosta da companhia da filha. "Nós podemos conversar", diz ela.





