Para FHC, não há motivo para anistiar responsáveis por grampo
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domingo, 30 de maio de 1999
Por Isabel Braga 
Brasília, 31 (AE) - O presidente Fernando Henrique Cardoso concedeu nesta segunda-feira (31) à TV Bandeirantes uma entrevista em que avisou: não há motivos para conceder anistia aos responsáveis pelo grampo no Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES).
Durante mais de uma hora, falando descontraidamente sobre assuntos variados, o presidente voltou a defender sua intervenção na privatização do sistema Telebrás como defesa do interesse público, mas garantiu que em nenhum momento conversou com ninguém da Previ (fundo de previdência do Banco do Brasil) para pressioná-la a apoiar o grupo liderado pelo Banco Opportunity.
Para o presidente, o grampo pode ter sido feito por funcionários da inteligência do governo, mas teve razões comerciais. O presidente também criticou a oposição por defender seu "impeachment" e acusou-os de estarem agindo como César Lacerda, que tentou várias vezes dar o golpe no ex-presidente Getúlio Vargas. Mas ressalvou que ao contrário de Lacerda, a oposição hoje não possui para isso o apoio do Congresso, das Forças Armadas e nem do Povo.
Fernando Henrique também mandou um recado para os aliados: é cedo para discutir a sucessão presidencial e se eles não ajudarem o governo a fazer coisas para melhorar o País, não será possível disputar um lugar político de destaque em 2002.
Segundo o presidente, quando os aliados o criticam de hesitar e não tomar decisões rápidas é porque ele está decidindo contra seus interesses. "Quando acham que estou hesitando, é que estou fazendo o que quero e não o que eles querem", ironizou.
O presidente disse que governa respeitando o Congresso e que, embora muitos gostariam que ele governasse "com um chicote na mão para o País andar", ele não fará isso. "Eu vou continuar conversando, o que não quer dizer que em certos momentos eu não possa tomar decisões que sejam surpreendentes; não me falta imaginação para surpreender."
Fernando Henrique voltou a dizer que não se preocupa com a queda de popularidade, mas criticou a pesquisa feita pelo Vox Populi que colocou-o ao lado da fraudadora do INSS, Jorgina de Freitas e do ex-deputado Sérgio Naya e perguntou quem era a pessoa que mais envergonha o Brasil no exterior. "Me colocar ao lado de bandidos, isso é um desrespeito com a figura do presidente, é induzir opiniões", queixou-se.
PONTO A PONTO FINS COMERCIAIS - "(O grampo) teve fins outros. Não foi o governo que usou isso, o governo não sabia disso, o governo foi vítima disso, mas não foram grupos de aliados do governo que fizeram isso, não foi a política que fez isso, aparentemente há uma espionagem comercial. Foi por essa razão e uma manipulação comercial disso."
ANISTIA PARA OS GRAMPEADORES - "Não vejo razão para isso, é a opinião do ministro da Justiça, mas não é a minha. Eu acho que são grampeadores. Não tem porque perdoar alguém se fez alguma coisa. Quer perdão de antemão? Não vejo razão para isso e acho que isso é mais uma espécie de armadilha."
DISCUSSÃO SOBRE SUCESSÃO PRESIDENCIAL - "Havia interesses comerciais envolvidos, mas isso tem consequências políticas negativas. Por que isso? Porque acho que há uma espécie de impaciência na política brasileira. Eu fui reeleito. Os que perderam não gostaram, não gostaram da primeira vez e da segunda menos ainda. Então criam crises, para dizer: o presidente está envolvido. O presidente não está envolvido em nada. A não ser naquilo que acabei de dizer aqui, com toda a tranquilidade, porque agiu com o propósito de defender o Tesouro Nacional.
LACERDISMO - "Existe uma espécie de Lacerdismo sem golpe armado. Vocês se lembram, na época do Carlos Lacerda denunciavam que iam derrubar o presidente eleito, o Juscelino, o Getúlio, tem que derrubar... golpismo... legítimo, golpismo larvar, mas diferente do passado, em que este golpismo se articulava, tinha às vezes quase maioria no Congresso e tinha as forças armadas. Hoje não tem nada disso, nem povo. O que o povo está precisando é que a gente saia das dificuldades econômicas, que a gente aumente o emprego, que se melhore educação.
BASE ALIADA - "A base aliada é heterogênea e houve a precipitação de uma discussão que não faz sentido: que partido vai em 2002? Isso é contra o interesse do País. Primeiro é preciso ter paciência, vão ter que ter muita paciência, eu não fico aflito com isso não, sabe Deus daqui a três anos quem vai estar vivo? Qual de nós? Então para que fazer essa precipitação agora? Nós, a base aliada, só teremos chance de ter alguma presença política ativa daqui a dois três anos se nós resolvermos as questões nacionais. As questões nacionais não são de saber se o PFL, o PSDB, o PMDB, o PPB ou a oposição é que vão estar no governo".
OPOSIÇÃO GOLPISTA/ ALIADOS PRECIPITADOS - "A oposição está no golpismo, num golpismo abstrato. Até me dá pena de ver esta ânsia de quebrar regras, de respeitar o voto popular e outro lado existe do setor que apóia o governo. Esta precipitação dos partidos, de alguns, isso tudo é feito sob a forma de forçar declarações. As pessoas não disseram exatamente, com essa intenção, mas aí faz-se a repercussão."
BRIGA SERRA X ORNÉLAS - "É uma discussão interna, é lamentável, eu conversarei com os dois no âmbito interno. São bons ministros. Fossem mal ministros acho que o caminho da rua seria melhor."
CHICOTE - "Ou eu faço uma política para ter um governo que vote as leis necessárias até mesmo para ter a estabilidade necessária, ou eu faço uma política como outros fizeram. Os que impuseram caíram. Confundem uma liderança democrática, que é efetiva, porque eu faço, eu nomeio, mas faço conversando. Há uma parte da nossa política que gostaria de ver uma coisa mais troglodita. Eu não faço barganha pessoal, eu crio condições políticas. As pessoas gostariam que houvesse a possibilidade de alguém, com um chicote na mão, fizesse o País andar. Eu não vou fazer isso."
DESEMPREGO EM SÃO PAULO - "Essa é a questão central. Nós perdemos a velocidade de crescimento econômico e isso fez com que aumentasse o desemprego. No caso de São Paulo, tem a ver com o fato de que a indústria está saindo de São Paulo. Então São Paulo está sofrendo uma crise semelhante a Nova York e Detroit no passado."
PEQUENAS E MICRO EMPRESAS - "Nas pequenas e microempresas tenho uma questão de inadimplência e de capital de giro. O Cadim é um verdadeiro tormento para estas empresas e eu já mandei estudar alguma fórmula para permitir que, numa fase de transição
as pequenas e microempresas possam ter sua vida acertada com capital de giro e com o Cadim. Essa etapa é aquela na qual vamos entrar para poder oferecer mais emprego."
AMIGOS DO OPPORTUNITY - "É até bom aproveitar a oportunidade para dizer o seguinte: pessoas, como Pérsio (Arida), André (Lara Rezende), deram uma contribuição decisiva ao Brasil, no Plano Real, pessoas cuja honorabilidade eu nunca pus em dúvida e nem ponho."
PRESSÃO - "Se (fosse para favorecer um grupo) eu não acharia ético. Mas eu estava sendo informado de que haveria a tentativa de utilização de recursos públicos, porque era a seguradora do Banco do Brasil. A Previ não é pública, mas o governo tem ingerência porque a presidência da Previ é do BB, então a utilização de recursos que são do governo e o governo tem obrigação de alertar: cuidado para que vocês não sejam instrumentos de uma montagem que não convém ao interesse nacional."
RESISTÊNCIA DA PREVI - "Não sei (que tipo de resistência tinha a Previ) porque não conversei com a Previ. Aliás, a minha intervenção se resumiu àquele diálogo. Eu não telefonei, não pressionei, não houve pressão. Houve uma informação dada ao presidente de que haveria um grupo que estar-se-ia montando sem bases sólidas e que isso não é bom para o País. Bom, nesse caso, (eu disse) então alerta a Previ desse ponto de vista."
DEVER - "O presidente tem de levar à Previ a opinião de quem? A opinião do BB. E quem é o dono do BB? É o tesouro. Então se tratava de alguma coisa de titularidade legítima, clara, de alertar: olha cuidado, este não nos parece o melhor grupo. Infelizmente essas coisas se passaram - pela repercussão sensacionalista dada - como se fosse uma intervenção para favorecer um grupo. Não. Porque o leilão, depois, decidiu a favor do grupo que os diretores do BNDES consideravam que não tinha a solidez necessária. Como aliás eu tenho lido e os jornais ultimamente estão mostrando isso. Nós estávamos preocupados em defender o interesse do País."
QUEM FEZ O GRAMPO - "Ao que tudo indica, pelo que tenho lido, há suposição de que alguns integrantes do governo, enquanto pessoas, estariam ligados a grupos que grampeiam. Por isso, sobretudo no Rio, houve muito grampeamento e hoje as tecnologias de grampeamento são as mais fáceis. A questão central é a seguinte: esse grampo, se é que foi feito por essas pessoas, eu espero que se apure, eu tenho insistido para que se apure. Isso é o Ministério Público e a Polícia Federal quem têm de apurar."


