Para FHC, Igreja faz pressão imoral
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terça-feira, 28 de abril de 1998
Agência Estado 
O presidente Fernando Henrique Cardoso chamou ontem de irresponsáveis, imorais e demagógicas as manifestações de integrantes da Igreja, do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) e do presidente da Central Única dos Trabalhadores (CUT), Vicente Paulo da Silva, em defesa dos saques feitos por flagelados pela seca no Nordeste. Para o presidente, trata-se de pressões demagógicas.
A pior demagogia é a que usa o pobre, acusou Fernando Henrique. Utilizar a miséria para fazer política, mesmo que não seja, como no passado, a indústria da seca, que tira proveito pessoal, eleitoral ou financeiro, é igual, é imoral, e não podemos aceitar condutas imorais diante da tragédia.
As afirmações do presidente foram feitas durante o 7º Encontro Nacional dos Interlocutores da Comunidade Solidária, no anexo do Planalto, em Brasília, no final da manhã de ontem. O discurso de Fernando Henrique surpreendeu os integrantes do Comunidade Solidária, que vêm se esforçando para deixar o assunto sob responsabilidade da Secretaria de Políticas Regionais, que comanda a Defesa Civil.
No discurso, o presidente respondeu às críticas que o projeto social do governo vem recebendo desde o início do governo, apresentando estatísticas, quadros e gráficos. Em seguida, defendeu a nomeação de Sérgio Moreira para a Superintendência do Desenvolvimento do Nordeste (Sudene) e lembrou que a seca sempre existiu, existe agora e vai continuar existindo. Disse que o governo está tomando medidas para tentar amenizar o problema, mas as ações não têm efeito imediato. No passado, existiu a indústria da seca e hoje ela tomou outras formas, mas continua existindo, comentou o presidente, passando a atacar os movimentos que apóiam os saques.
É irresponsável que líderes políticos ou religiosos incitem saques sem conhecer a realidade, afirmou. Mas reconheceu ser absolutamente necessário que líderes políticos e religiosos, de oposição ou não ao governo, chamem a atenção para o fato e exijam medidas. De acordo com o presidente, o saque desorganiza a possibilidade de atender a população e é demagogia.
O governo, disse Fernando Henrique, já vinha adotando medidas e está se organizando contra a seca, mas as ações dependem muito da organização local. Segundo o presidente, se necessário, o governo financiará até o envio de carros-pipa para abastecer a população. É horrível, mas se for preciso vai ter carro-pipa porque a população necessita de água. Fernando Henrique defendeu a necessidade de alfabetizar a população e oferecer qualificação, além de distribuir alimento, com decência, usando apoio do Exército.
O presidente aproveitou para elogiar a atuação do general Nilton Rodrigues, ex-superintendente da Sudene que, segundo ele, deixou o cargo por razões pessoais. Ele moralizou a Sudene, atestou Fernando Henrique, comentando que nomeou Sérgio Moreira não por ser deste ou daquele partido (ele é do PSDB-AL), mas pela sua visão do problema, pela sua relação direta com o presidente e com o ministro do Meio Ambiente e pelas suas articulações com a Secretaria de Políticas Regionais.


