Londrina – Depois de lançar o controverso programa Mais Médicos, que vai trazer profissionais estrangeiros para atuar no Brasil, o governo federal acenou com a possibilidade de trazer também engenheiros de outros países para suprir a suposta falta de mão de obra da área.
Para entidades representativas da classe, o problema do País não é a falta de engenheiros, mas os salários pouco atrativos pagos pelo poder público. Outro ponto negativo apontado pelos profissionais é o pequeno número de formandos em relação ao total de alunos que entram nas universidades a cada ano.
Para o assessor de Políticas Públicas do Conselho Regional de Engenharia e Agronomia do Paraná (Crea-PR), Valter Panini, não há "nenhuma demonstração evidente do governo federal que exista uma escassez de profissionais" no País. Por isso, argumenta, a importação de engenheiros estrangeiros não se faz necessária.
"Não tenho conhecimento de nenhum chamamento público, até mesmo em cidades pequenas, em que as vagas não tenham sido ocupadas. Se houvesse falta de engenheiros, os salários teriam subido, é a lei da oferta e da procura, mas isso não aconteceu. Os salários têm se mantido na mesma média nos últimos oito, nove anos", aponta Panini.
Um dos argumentos do governo federal para importar estrangeiros é a necessidade dos municípios contarem com engenheiros para a elaboração de projetos visando o crescimento do País em todas as regiões. Segundo Panini, alguns municípios sequer conseguem pagar, por falta de recursos, o piso da categoria. "Trazer engenheiros de fora vai aumentar a oferta de profissionais, reduzir os vencimentos e piorar a qualidade", alfineta.
Para a presidente do Clube de Engenharia e Arquitetura de Londrina (Ceal), Maria Clarice Moreno, já existe uma grande quantidade de engenheiros estrangeiros trabalhando em grandes empresas brasileiras. Segundo ela, o que falta é valorização profissional da categoria, o que faz com que muitos engenheiros formados optem por trabalhar em outras áreas, como no setor bancário. "Se as prefeituras tivessem valorizado os engenheiros não teríamos tantas favelas, enchentes e falta de planejamento e urbanismo nas nossas cidades", ressalta.
Dados de 2010, do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicado (Ipea), apontam que apenas 30% dos engenheiros formados exercem a profissão.
"Realmente a carreira pública não é atrativa. É difícil encontrar alguém que está entrando no mercado de trabalho que não queira ir para a iniciativa privada", reforça o coordenador de Engenharia Mecânica da Universidade Tecnológica Federal do Paraná (UTFPR), Roger Nabeyama.
Dados do Crea-PR apontam que 63 mil engenheiros estão inscritos no órgão, mas somente 36 mil realmente exercem a profissão. "Muitos desses podem voltar desde que a questão salarial seja revista", aponta o presidente do Sindicato dos Engenheiros no Estado do Paraná (Senge-PR), Ulisses Kaniak.
Segundo a Federação Nacional dos Engenheiros (FNE), existem hoje 700 mil engenheiros no país, dos quais 500 mil estão afiliados a FNE. O piso nacional da categoria por oito horas de trabalho é de nove salários mínimos, o equivalente a R$ 6.102.
"Será que os estrangeiros virão com os salários que são pagos hoje aqui no Brasil? Com o que se paga certamente não viriam os melhores profissionais de fora", afirma Kaniak. "Os nossos profissionais têm capacidade, basta que exista uma valorização e salários adequados", frisou Maria Clarice.
As fontes ouvidas reconhecem que o País tem falta de profissionais em áreas específicas, como as engenharias Naval e de Minas. "Realmente em algumas especialidades existe uma escassez, mas são questões pontuais", coloca Panini.

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