Para especialistas, deve se resgatar cidadania da PM
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sábado, 12 de abril de 1997
Agência Folha 
SÃO PAULO - As Polícias Militares brasileiras devem recuperar a cidadania de seus integrantes e fazer com que seus agentes trabalhem para a sociedade, e não contra ela. Para tanto, os policiais precisam entender as relações sociais e ter sua função na comunidade bem definida, com direitos, deveres, controle e punição para suas faltas.
Especialistas são unânimes em apontar o processo de desmilitarização dos PMs, que voltariam a se enxergar como cidadãos, como a saída para evitar os delitos praticados por policiais. O policial precisa saber que integra a sociedade. Para Álvaro de Aquino e Silva Gullo, do Departamento de Sociologia da Universidade de São Paulo (USP), esse contato até existe, mas deve ser aprofundado.
A maior parte dos veículos da PM que passam pela periferia de São Paulo presta assistência social. Como às vezes não há hospitais por perto, doentes, gestantes e acidentados são transportados no carro da polícia, disse o professor, autor de uma análise socioeconômica da PM paulista, em 1992.
Algumas ações da Polícia Militar mostram que a idéia de se aproximar da sociedade frequenta os quartéis. Entre fevereiro e março, o policiamento de choque de São Paulo tentou implantar uma operação de repressão a pequenos delitos e atitudes anti-sociais.
A ação previa uma abordagem respeitosa à população, mas acabou gerando antipatia por submeter trabalhadores a revistas e lotar delegacias de mendigos. A integração da PM à sociedade a que ela deve servir quebraria a desconfiança da população. Para tanto, o policial teria de conhecer, de fato, o meio com o qual vai interagir e ter a total noção de seu papel na sociedade. Se a idéia é interação com a comunidade, o policial deverá abandonar a concepção de que o civil é um inimigo em potencial. Ou seja, deve-se eliminar ao máximo o caráter militar da formação dos PMs, substituindo-o por conhecimentos sociológicos e especialização na atividade policial.
A regulamentação básica da PM vem do governo (Getúlio) Vargas e do regime militar e está anacrônica, declarou Oscar Vilhena Vieira, secretário-executivo do Instituto Latino-Americano das Nações Unidas para a Prevenção do Crime (Ilanud). É preciso mudar o código de referências pelo qual eles são formados, ou ao menos diminuir o padrão de militarização. Os policiais são instruídos a reconhecer no outro um inimigo a ser eliminado, acrescentou.
Paralelamente à formação, o trabalho do PM tem de ser regulamentado e monitorado. A sugestão da Ilanud é criar um código de conduta que indique ao soldado o momento certo de aplicar a força, ou usar a arma de fogo. O policial se condicionaria a não usar a força na maioria dos casos, disse Vieira.
A Human Rights Watch/Americas, entidade de defesa dos direitos humanos, propõe algumas medidas: processar criminalmente os policiais violentos, estabelecer competência federal para crimes contra direitos humanos e eliminar a competência da Justiça Militar para crimes contra civis.


