São Paulo, 02 (AE) - A redução de 20% para 10% do recolhimento compulsório sobre os depósitos a prazo não deverá aliviar o constrangimento a que os empresários do setor industrial são submetidos no momento em que recorrem aos bancos para obter crédito. Nada deve mudar, acreditam. O dinheiro deve permanecer escasso e as relações com o setor financeiro vão continuar difíceis, afirmaram. Atualmente, para financiar a produção, segundo informam, são obrigados a depositar garantias em duplicatas e dar avais pessoais. E ainda, a título de reciprocidade, têm de manter aplicada no banco pelo menos a metade do valor liberado.
"Reduzir pela metade o compulsório não deverá melhor a liquidez no mercado financeiro", afirmou hoje o vice-presidente do Centro das Indústrias do Estado de São Paulo (Ciesp), Mario Bernardini. Como, em geral, os recolhimentos ao Banco Central são feitos em títulos públicos e, como os grandes bancos mantêm elevado estoque desses papéis, a redução do depósito compulsório não deverá contribuir para elevar a oferta de dinheiro, disse Bernardini. Para ele, não se deve confirmar a expectativa de que o impacto da medida do BC será uma injeção de R$ 10 bilhões na economia.
O vice-presidente do Ciesp acha que apenas uma expressiva redução na taxa básica de juros, a Selic, pode resultar em benefício para a economia. Bernardini diz que o Brasil já não precisa atrair capital estrangeiro volátil e por isso, não existe razão para manter os juros em níveis tão elevados. "O argumento de que é preciso manter rentabilidade para atrair capital estrangeiro é tão frágil, quanto era o de que câmbio deveria permanecer valorizado", disse Bernardini. "Desvalorizaram o real e o mundo não acabou."
Com taxas de juros mais baixas e um spread (taxa de risco) adequado, a economia voltaria a crescer sem risco de desestabilização, defendem os empresários. Na situação atual, as empresas capitalizadas preferem manter-se distantes dos bancos. Os exportadores optam por operações de Adiantamento de Contrato de Câmbio (ACCs), para as quais são obrigados a oferecer as mesmas garantias, mas, pelo menos, estão protegidos dos riscos cambiais. Os juros também são baixos, em torno de 10% ao ano, além da variação do câmbio, afirmou o presidente da Associação Brasileira da Indústria da Fundição (Abifa), José Raya.
Apenas as indústrias cujos produtos têm boa aceitação no mercado conseguem repassar aos preços os custos financeiros, que
segundo Raya, são de pelo menos 2% ao mês. Isso para as empresas com bom cadastro e ótimo relacionamento com os bancos, disse o presidente da Abifa. Para ele, a inadimplência elevada tornou os bancos seletivos e levou-os a exigir tantas garantias. Muitos empresários, segundo afirmou, são obrigados a oferecer o patrimônio familiar para manter as operações de suas empresas.

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