O Pará lidera o número de mortos em conflitos pela posse de terra no País. Em 96, segundo relatório da Comissão Pastoral da Terra (CPT) no Estado que será divulgado hoje, 33 dos 54 assassinatos no campo em todo o Brasil foram praticados no sul e sudeste paraense. Cerca de 72 conflitos envolveram 8.286 famílias e 195.733 hectares de terras.
O relatório da CPT mostra que no item violência contra a pessoa o Pará também foi campeão nacional. Um total de 235 trabalhadores rurais sem terra foram vítimas de assassinato, tortura, lesões corporais e tentativas de assassinato. Em toda a Amazônia, nos últimos 11 anos, ocorreram 22 chacinas com um total de 151 mortos. O Pará também ficou na frente, com 14 chacinas.
A violência contra a posse e a propriedade também apresentou números elevados na região. A CPT mostra que 200 das 309 vítimas de despejos judiciais foram do Pará e 77 do Estado do Tocantins. Crianças e adolescentes que vivem no campo foram incluídas pela primeira vez no relatório. Em seis anos, dez menores com idades entre 6 e 17 anos foram mortos, 26 receberam ameaças e outros 28 sofreram tentativa de assassinato.
O padre Adriano Sella, da Ordem dos Xaverianos, em São Félix do Xingú, sudeste paraense, credita os números do relatório à ‘‘profunda injustiça social no campo’’. Sella condena a concentração de imensas áreas improdutivas nas mãos de poucos fazendeiros, afirmando que isso é uma das causas da revolta de quem não tem ‘‘sequer um palmo de terra’’.
No sábado, as polícias Militar e Civil entregaram as fazendas ‘‘Baguᒒ e ‘‘Volta do Rio’’ aos irmãos Celso e Délio Mutran. ‘‘Elas estão livres de invasores’’, disse o delegado Lauriston Góes. Ele informou que os mandados de reintegração de posse expedidos pela juíza Margui Bittencourt foram cumpridos. Sete pessoas acusadas de liderar invasões de terras na região estão presas na cadeia de Curionópolis.
Invasão - Cerca de 200 trabalhadores rurais sem terra invadiram na madrugada de ontem a fazenda Lagoa, na região metropolitana de Salvador.
Segundo a polícia de São Sebastião do Passé (58 quilômetros de Salvador), os sem-terra chegaram à fazenda em um caminhão, às 4 horas, acompanhados de duas religiosas da Pastoral da Terra e de representantes do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST).
O proprietário da fazenda, o endocrinologista Djean Bessa, 65, disse que utiliza a área para obter rendimentos com aluguel de pasto e que cria cem cabeças de gado no local.
‘‘Trata-se de uma fazenda produtiva e que tem uma sede tombada como patrimônio histórico. Além disso, todos os impostos estão pagos’’, afirmou.
Com aproximadamente 400 hectares, a fazenda tem uma casa de 17 quartos, diversos objetos de arte e antiguidades, segundo Bessa. ‘‘Já prestei queixa na polícia e amanhã (hoje) mesmo meus advogados vão ingressar na Justiça com um pedido de reintegração de posse’’, disse. Dirigentes do MST alegam que a área invadida é improdutiva e estava abandonada havia pelo menos um ano. A fazenda Lagoa fica a 60 quilômetros da capital baiana.

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