Buenos Aires, 13 (AE) - "Os países ricos devem nos ajudar agora, e não depois que tenhamos caído, quando for tarde." O alerta foi realizado pelo candidato do governo à presidência do país, Eduardo Duhalde, cujas declarações sobre o adiamento do pagamento da dívida externa foram uma das causas que provocaram a abrupta queda de 8,7% da bolsa portenha na segunda-feira.
Duhalde não voltou atrás em suas declarações sobre ir à Roma pedir ao papa João Paulo II que interceda a favor da Argentina no adiamento da dívida. Mais uma vez, nesta terça-feira, o candidato peronista reforçou sua idéia de que a saída para o país passa pela Praças de São Pedro: "Esta postura sobre a dívida não é só minha. É da Igreja Católica." O candidato sustentou que pretende ver o Papa na semana que vem.
Desta vez, as declarações de Duhalde, governador há oito anos da província de Buenos Aires, a principal do país, não abalaram a bolsa, que fechou em alta de 4,59%.
Duhalde definiu a dívida como "uma carga insuportável, que não permite que o país possa dar educação às crianças, nem pagar decentemente os aposentados". Além disso, o candidato do governo afirmou que é "um absurdo" pensar que suas declarações tenham causado a queda na bolsa.
A estratégia de atacar a dívida externa veio de fora, pois foi criação do assessor de Duhalde para sua campanha política. James Carville, ex-assessor do presidente Bill Clinton, que recomendou ao candidato peronista que criticar a dívida era uma boa maneira de diferenciar-se da coalizão de oposição Aliança UCR-Frepaso.
Duhalde defendeu-se da saraivada de críticas que recebeu ontem e hoje afirmando que não pediu a moratória. Segundo ele, apenas pediu "uma reconsideração da dívida com países como a Argentina
que tem dificuldades para pagá-la".
Bravatas, fanfarronadas. Estes foram os termos mais frequentes entre analistas econômicos para definir as declarações de Duhalde. O comentarista econômico Alfredo Zaiat disse à Agência Estado que investidores e banqueiros podem espernear com a proposta de Duhalde, mas sabem que o candidato peronista não cumprirá essa ameaça. "Da mesma forma que Menem ameaçou decretar a moratória ou realizar o salariaço durante sua campanha eleitoral de 1989", exemplificou.
Segundo Zaiat, a economia argentina está em uma profunda recessão, inclusive superior à que ocorreu durante a crise mexicana. "Em 1995, a queda foi brusca, mas o país rapidamente se recuperou. No momento não se enxerga um horizonte de saída a um prazo imediato. A crise atual está acontecendo durante a transição política. Por isso sua saída é mais demorada".
Comentando as declarações de Duhalde, o candidato da Aliança UCR-Frepaso, Fernando de la Rúa disse que não se pode passar o problema da dívida externa ao papa. Para tentar passar uma imagem confiável, a oposição anunciou que mandará à Nova York José Luis Machinea, seu potencial ministro da Economia no caso de uma vitória eleitoral. Machinea irá aos Estados Unidos no dia 20 de julho para dar garantias de estabilidade aos investidores internacionais.
O secretário de financiamento, Miguel Kiguel, defendeu-se dos rumores de que o país não poderia cumprir os vencimentos da dívida no ano que vem. Segundo Kiguel, "não haverá problemas" no ano 2000, já que o país "só terá que pagar US$ 3,2 bilhões no mercado internacional, US$ 5,1 bilhões no mercado interno e US$ 3,4 bilhões para os órgãos internacionais". Para o resto deste ano, o país precisará US$ 1,9 bilhão de financiamento.
Nesta terça-feira, o governo argentino fez uma nova colocação de Letes (Letras do Tesouro). No total foram US$ 250 milhões a 91 dias, pagando uma taxa de 8,95% e US$ 375 milhões a 182 dias, com taxas de 13%. As taxas das colocações foram altas, se comparadas com a última colocação, no mês passado, quando as taxas foram de 6,65% a 91 dias, e 7,79% a 182 dias.
Neste contexto de turbulência econômica e política, o ministro Roque Fernandez recebeu a visita da União Industrial Argentina (UIA). Os industriais pediram o aumento do imposto de importação
facilitação para aplicação de medidas antidumping e anti-subsídios, além da aplicação de salvaguardas no comércio intra-Mercosul para os setores afetados.

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