Para CPI, Receita tem esquema para lavar dinheiro
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quinta-feira, 13 de abril de 2000
Por Daniel Gonzales 
São Paulo, 14 (AE) - Os deputados da CPI do Narcotráfico deixaram a Assembléia Legislativa na noite de quinta-feira convencidos da existência de um esquema na Receita Federal para lavagem de dinheiro e trânsito de contêineres com mercadorias sem fiscalização, com drogas e armas, embora o superintendente do órgão em São Paulo, Flávio Del Comuni, tenha conseguido convencer parte dos parlamentares de que não teve participação nos crimes. Mas o depoimento do auditor fiscal da Receita Márcio Pugliesi, no último do terceiro dia de trabalhos, serviu, segundo o deputado Celso Russomano (PPB), "para detalhar o esquema de remessa irregular de dinheiro, obtido no Brasil às custas de fraudes, para paraísos fiscais no exterior".
Segundo os integrantes da CPI, há indícios de que Pugliesi teria participação na empresa Intelco, em São Paulo, que receberia remessas de dinheiro de uma outra companhia uruguaia, a Unidoor, onde seria feita a lavagem de dinheiro remetido irregularmente do Brasil. O Uruguai é conhecido por ser um paraíso fiscal. Familiares do auditor - entre eles a mulher, a ex-mulher, a prima, o afilhado e sua advogada - têm ou tiveram, segundo a CPI, participação na diretoria da empresa brasileira. Além disso, o próprio Pugliesi teria analisado balanços da companhia e recomendado sua aquisição.
A Intelco, de acordo com os deputados, teria sido adquirida num momento em que atravessava dificuldades financeiras, para servir de fachada para as operações. "A intenção é essa: empresa está quebrada e mandam pessoas para comprá-la", diz Russomano. "Aquele que é funcionário público e começa a ter padrão de vida superior aos rendimentos tem de lavar o dinheiro em algum lugar". Segundo o deputado, "quando esse dinheiro volta do Uruguai, volta de maneira oficial, porque está entrando vindo de outro país".
Pugliesi tentou convencer os deputados de que não tem ligação com a empresa. "Tudo o que se apresenta leva a crer que o senhor era o dono", disse o deputado Robson Tuma (PL). "Atualmente, eu nem sei como a empresa está, quebro meu sigilo bancário com tranquilidade e coloco-me à disposição para qualquer outro esclarecimento", disse o auditor. "Ora, sua família está na empresa e o senhor não participa?", perguntou Russomano. Pugliesi respondeu que apenas atuou na compra da Intelco, analisando seu patrimônio, e que a companhia estava sendo "espoliada" por seu antigo dono. O auditor será ouvido novamente pela CPI, inclusive em acareações com pessoas citadas por ele, prometem os deputados. "Eu jamais ocupei cargos de confiança na Receita Federal", disse Pugliesi.
O depoimento ocorreu depois de uma certa frustração causada pelo superintendente do órgão em São Paulo, Flávio Del Comuni, investigado pela Polícia Federal sob a acusação de fraudes e favorecimento ao contrabando. Comuni havia declarado que, nos últimos três anos, não houve nenhuma apreensão de drogas e armas no Porto de Santos, considerado uma das principais portas de entrada dos artigos no País, ao lado dos aeroportos de Cumbica e Viracopos, em Campinas. Segundo os deputados, isso só serviu para reforçar a suspeita da omissão da Receita Federal na fiscalização, o que estaria favorecendo traficantes. "Não interessa se o cargo dele é alto, vamos investigar", disse o deputado Moroni Torgan, relator da CPI.
O relator da CPI do Narcotráfico, deputado Moroni Torgan (PFL-CE), afirmou na madrugada de sexta-feira que "o Estado de São Paulo deu muito mais trabalho à comissão de que se imaginava". Para o deputado, o que mais impressionou foi a lentidão e a falta de interesse das autoridades paulistas na punição de policiais ligados ao crime organizado. "Não adianta individualizar o processo e punir as pessoas individualmente", disse. "Nos interessam, sim, instrumentos para sufocar as bandas podres do crime organizado, como a comissão que sugerimos ao governador", disse Torgan. "Se a comissão for adotada e atuante, talvez daqui a cinco, dez anos tenhamos tido uma boa evolução no combate ao crime."
Para o deputado, no entanto, o pouco tempo da CPI em São Paulo foi muito proveitoso. "A cada dia surgem mais e mais testemunhas de crimes cometidos dentro da polícia, e muitas das denúncias são muito detalhadas, disse Torgan. "E um bandido com carteira oficial causa mais danos do que o que não é oficial."


