Para CPI, baía é vulnerável para conter drogas
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terça-feira, 02 de novembro de 1999
Por Eliane Azevedo, Roberta Jansen e Adriana Ferreira 
Rio, 03 (AE)- Depois de um giro de duas horas e meia pela Baía de Guanabara, na qual chegaram até a ser intimidados pela presença de homens armados postados no alto da Favela do Caju, os dez deputados da Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) do Narcotráfico que estiveram no Rio para investigar o tráfico de drogas ficaram impressionados com a vulnerabilidade das vias marítimas de acesso ao Estado. "A Baía é frágil", disse o presidente da CPI, deputado federal Magno Malta (PTB-ES). "A Marinha tem de participar da fiscalização e, se não houver o aparelhamento das polícias, vamos ter o dissabor de só saber que entra droga, e não como se faz para detê-la."
O deputado federal Fernando Ferro (PT-PE) disse ter se surpreendido com a falta de sintonia entre os órgãos de informação das instituições responsáveis pela fiscalização da Baía. "Achei estranho a inteligência da Marinha não ter contato com a Polícia Federal na cobertura dessa área", criticou. A presença dos "olheiros" do tráfico, armados em cima das lajes dos barracos na Favela do Caju, assustou Ferro. "Recepcionaram a CPI à luz do dia e isso nos dá uma idéia da ousadia e do poder de fogo desse pessoal."
Malta sugeriu a criação de um pelotão das Forças Armadas que combateria o narcotráfico com a Polícia Federal em portos e aeroportos. O deputado federal Antônio Carlos Biscaia (PT-RJ) declarou-se contrário à idéia. "As Forças Armadas são preparadas para a defesa da soberania e da fronteira e não para uma função policial, que é da Polícia Federal", observou. Para Biscaia, o importante é investir nos equipamentos e nos recursos humanos para que a PF tenha mais condições de agir.
Hoje, a CPI dedicou-se a vistoriar as condições de acesso marítimo ao Estado - pela manhã, num giro de lancha pela Baía e, à tarde, numa caminhada pelo Porto do Rio. Amanhã (04), os deputados se reúnem com o governador Anthony Garotinho (PDT) e com o procurador-geral de Justiça, José Muiñoz Piñero Filho. O governador apresentará um relatório de 50 páginas sobre o tráfico de drogas no Estado, no qual são apontados nomes de policiais envolvidos com o comércio ilegal. "Eles serão identificados, punidos e afastados da coorporação", garantiu Garotinho.
O documento aponta também o nome de empresas que fazem lavagem de dinheiro para o narcotráfico, além das principais rotas utilizadas pelos traficantes da região. Segundo Garotinho, o objetivo é colaborar com a investigação da CPI realizada no Estado para levantar as rotas do tráfico e o envolvimento de policiais e políticos no crime organizado. O relatório foi feito pela Divisão de Repressão à Entorpecentes (DRE) - mesmo setor que já havia elaborado um levantamento considerado superficial pelo relator da CPI, deputado Moroni Torgan (PFL/CE). O próprio coordenador de Segurança Pública do Estado, Luiz Eduardo Soares, admitiu que o primeiro relatório estava "realmente muito fraco." Além dos dados desse levantamento prévio, os deputados da CPI estavam utilizando nas investigações informações da Delegacia Nacional de Entorpecentes da Polícia Federal, que apresenta trimestralmente relatórios completos sobre as apreensões de drogas no País. Para a Polícia Federal, as rodovias são as principais portas de entrada das drogas no País. "Se apreende muito mais nas estradas do que na Baía de Guanabara", afirmou hoje o delegado regional da PF no Rio, Flávio Furtado. Ele admitiu, no entanto, que as dificuldades encontradas pela polícia para a fiscalização da baía podem explicar os baixos índices de apreensão nesse local. No relatório anterior enviado pela DRE à CPI, a via marítima era apontada como principal porta de entrada das drogas.
A maioria dos deputados preferiu se manter à margem da polêmica. "A PF tem se mostrado uma companheira competente", elogiou o presidente da CPI, deputado Magno Malta (PTB/ES). "Mas a gente tem é que unir informações: as da PF são boas e as da polícia estadual também."
Com o Ministério Público, os deputados pretendem se inteirar das investigações sobre a quadrilha de Luiz Fernando da Costa, o Fernandinho Beira-Mar. Não existe ainda ligações comprovadas entre Beira-Mar, considerado o maior traficante carioca, e a quadrilha liderada pelo ex-deputado Hildebrando Paschoal. Um indício considerado importante pela CPI são as cartas recebidas pelo juiz da 12ª Vara Criminal de Belo Horizonte, Ely Lucas de Mendonça, que condenou o traficante a 12 anos de prisão.
Segundo informou o juiz, o autor das correspondências, que se identificou apenas como Carlinhos, afirmou que o grupo de Beira-Mar era tão poderoso que tinha a proteção de Paschoal. "É um dado importante e vou requisitar oficialmente a correspondência ao juiz", afirmou Malta.


