Para comunidade cubana em Miami, Elián é um santo Da enviada especial Mônica Yanakiew
MIAMI, EUA, 30 (AE) - Madeleine Peraza só acreditou que a Virgem Maria apareceu na casa ao lado, para proteger seu famoso vizinho, porque estava lá e filmou a imagem. "Nunca fui dessas pessoas crentes", explicou hoje (30) a jovem química de 26 anos, que em 1994 fugiu de barco de Cuba em busca de uma vida melhor nos Estados Unidos.
"Mas agora acredito que Elián González está em Miami e deve ficar aquí porque essa é a vontade de Deus", disse à AE.
Para provar que a aparição não é um fruto de sua imaginação, ela colocou a fita no aparelho de vídeo. A imagem tremida mostra o espelho do quarto de Marisleysis González, sua vizinha e prima de segundo grau de Elian, onde o menino de 6 anos está morando há quatro meses. Num canto aparece uma figura escura, parecida a um reflexo de uma estátua de madeira da Virgem, coberta por um manto e rezando.
"Olha aí, agora dá para ver direitinho o rosto dela e as mãos, não dá?" pergunta Madeleine. Na cena seguinte, Elian se aproxima do espelho e passa os dedos sobre a aparição. "Ele não entendia porque estávamos tão emocionados: nós só vimos a Virgem durante quatro horas, mas Elian nos disse que ela sempre esteve lá".
Do lado de fora da casa de Madeleine em Little Havana, o bairro cubano de Miami, uma pequena multidão esperava desde as primeiras horas da manhã uma chance para ver Elian. "Fala meu amor, fala meu céu", gritou uma mulher, quando o menino apareceu no portão da casa 2319 da Rua 2, sorrindo timidamente e acenando com as mãozinhas. "Você ficará aqui meu santo, Deus te protegerá e nós rezaremos por você", gritou outra.
No último dia 25 de novembro, quando foi resgatado por dois pescadores a poucos quilômetros da costa do Estado da Flórida, o menino era apenas um dos únicos três sobreviventes de um naufrágio. Sua mãe, seu padrasto e outros dez adultos morreram, quando o barco no qual fugiam de Cuba foi destruído por uma tempestade.
Mas nos meses seguintes o status de Elian mudou: passou a ser centro de uma disputa internacional, símbolo de quatro décadas de oposição ao regime de Fidel Castro em Cuba, e tema da campanha para as eleições norte-americanas de novembro. Agora a criança - cujo destino está afetando a vida de candidatos a prefeito, ao Congresso e à presidência dos EUA - foi promovido a santo. Tornou-se um "enviado de Deus", que deveria estar acima das leis dos comuns mortais.
Madeleine - cujo marido, Cristóbal, é médico - diz que Elian só sobreviveu ao naufrágio por milagre. "Eu também fugi de Cuba num barco, enfrentando uma travessia de onze horas e uma tempestade", conta. "Sei o que é isso e não entendo como ele se salvou, depois de ficar dois dias boiando no mar, amarrado a um pedaço do barco", diz ela.
Ela não é a única que pensa assim. Na noite anterior, milhares de pessoas, segurando velas, fizeram uma manifestação pacífica no centro de Little Havana para rezar e protestar contra o governo americano. O INS (sigla em inglês para o Serviço de Imigração e Naturalização dos EUA) já decidiu que Elian tem de voltar a Cuba, para ficar com o pai, Juan Miguel González. Mas o tio-avô Lazaro González (pai de Marisleysis) insiste em mantê-lo em sua casa e está recorrendo à justiça, com a ajuda de cinco advogados.
Hoje - enquanto representantes dos governos americano e cubano se reuniam em Washington para decidir o futuro de Elian e os advogados de Lázaro Gonzalez tentavam chegar a um acordo com o INS em Miami - 30 câmaras de televisão e uma centena de jornalistas cercavam as casas do menino e de seus vizinhos. Antes mesmo de saber como terminará a saga de Elian, a cadeia de TV CBS já negociou um contrato exclusivo para transformar a sua história numa mini-série de quatro horas.
"Se decidirem enviar Elian de volta a Cuba haverá uma revolta aqui", diz Madeleine. "Os ânimos estão muito acirrados", explica. Suas palavras foram confirmadas pelo prefeito de Miami, Joe Carollo. "Já expliquei ao Departamento de Estado que existem riscos", disse à AE.
As ameaças da comunidade cubano-americana já deram alguns resultados: hoje o vice-presidente Al Gore, candidato do Partido Democrata às eleições presidenciais de novembro, mudou seu discurso inicial, afastando-se da posição do governo e admitindo um tratamento diferente para o caso de Elian. Não foi a toa.
"Queremos que o caso só seja resolvido a partir de novembro", diz Madeleine. "Vamos votar pelo candidato do Partido Republicano (o governador do Texas, George W. Bush) à presidência. Se ele ganhar, temos certeza de que manterá Elian aqui, desafiando a ditadura cubana de Fidel Castro", concluiu.
A comunidade cubano-americana tampouco aceita entregar Elian ao pai - mesmo que ele viaje aos EUA para buscá-lo, como prometeu Castro. "O pai virá acompanhado de psicólogos e de um mundo de gente, que vão trancar o menino na representação cubana em Washington, para submetê-lo a uma lavagem cerebral", disse Olga Rodriguez, de 47 anos, que amanheceu na porta da casa da criança. "Queremos que o pai venha a Miami e negocie com a família o melhor para Elián. E o melhor é que ele fique aquí".





