São Paulo, 29 (AE) - O governo cometeu um erro político, que se refletirá negativamente na popularidade do presidente Fernando Henrique Cardoso, ao não enfrentar honestamente a discussão do reajuste para o salário mínimo e do teto salarial para os três Poderes. A análise é do cientista político Fernando Haddad, observando que será difícil, agora, o governo explicar os motivos que o levam a discordar da proposta pefelista de aumentar o salário mínimo para o equivalente a US$ 100, enquanto demonstra apoiar a concessão do auxílio-moradia aos juízes que ameaçavam entrar em greve. "Foi uma infeliz coincidência a de que, ao mesmo tempo, o País presencie essa discussão que reflete as enormes desigualdades brasileiras", disse Haddad.
Depois de Fernando Henrique ter conseguido uma pequena recuperação nos índices de popularidade, graças a alguns sinais positivos na economia, a população, acredita Haddad, deverá reagir negativamente aos últimos fatos. Essa reação deverá se somar à tradicional queda na aceitação do governo, que costuma anteceder o anúncio do porcentual de reajuste para o mínimo. "O pior é que Fernando Henrique assumirá sozinho esse ônus; seus aliados já se anteciparam e passaram a defender um valor muito superior ao que o governo pode conceder", explicou o cientista.
Diferentemente de Haddad, o cientista político Carlos Eduardo Novaes acha que a discussão do reajuste do salário-mínimo e a concessão do auxílio moradia não deverão provocar nem estragos no governo nem uma nova queda na popularidade de Fernando Henrique. Isso porque, segundo Novaes, os episódios não terão nenhuma dimensão institucional e o governo não está diretamente envolvido, principalmente na questão do auxílio-moradia. Durante alguns dias, considerou Novaes, os dois temas vão mobilizar a opinião pública. Mas logo terão sido substituídos por outros. "Do ponto de vista dos destinos do País, não vejo nenhuma importância política nessas divergências."
Fernando Henrique, assinalou Novaes, preserva o apoio incondicional dos partidos no Congresso que, ainda por algum tempo, tentarão faturar dividendos por defender um reajuste maior para o mínimo, mas vão concordar com o valor decidido pelo Palácio do Planalto. Já o auxílio-moradia, também de acordo com Novaes, deverá ser derrubado no Supremo Tribunal Federal (STF). "Os juízes conseguiram apenas uma liminar corporativa que não será aceita no julgamento do pleno e essa conversa toda vai acabar; o ministro Nelson Jobim apenas adiou o problema, esvaziando uma mobilização", disse Novaes.