Montevidéu, 4 (AE) - O Brasil e a Argentina não devem conseguir chegar a um acordo esta semana sobre o impasse comercial provocado pela "fracassada" tentativa argentina de impor salvaguardas contra as importações de produtos provenientes do Mercosul. Amanhã e sexta-feira, técnicos e, depois, ministros dos quatro países membros do bloco vão tentar encontrar uma saída para o que se transformou na pior crise da história do Mercosul.
A Argentina quer compensações por causa das distorções comerciais que a desvalorização do real teriam causado. O Brasil
por sua vez, já advertiu que não oferecerá as tais compensações
mesmo que temporariamente, por causa da mudança cambial, embora reconheça que poderá analisar casos específicos.
Em entrevista à AGÊNCIA ESTADO, em Montevidéu, uma alta fonte diplomática do Itamaraty disse "não ver saída" para o conflito comercial, porque os setores industriais argentinos que vêm pressionando o presidente Carlos Menem para criar barreiras protecionistas não conseguiram, até agora, se tornarem competitivos para enfrentar a meta de uma união aduaneira perfeita que o bloco regional espera atingir.
"Os produtos que os industriais argentinos dizem ser sensíveis e afetados pela desvalorização de real são os mesmos que geraram, há oito anos, as listas de exceções dos quatros países membros do Mercosul", disse essa fonte.
Esses setores tiveram um período bastante extenso para se adequarem às regras de desgravação tarifária prevista no Tratado de Assunção, mas ainda continuam pressionando em busca de proteção com métodos e mecanismos inaceitáveis em uma união aduaneira. "A aplicação de salvaguardas que a Argentina tentou impor são inaceitáveis, já que atinge os pilares do Mercosul", acrescentou.
O diplomata explicou que há muito tempo o governo brasileiro vem alertando o governo argentino para não adotar medidas protecionistas. Caso contrário, as barreiras acabariam desencadeando uma instabilidade institucional do bloco. "Os tratados do Mercosul se soprepõem aos da Aladi, razão pela qual a Argentina não poderia invocar artigos sobre salvaguardas previstas nessa associação", explicou. "Há muitos anos que as salvaguardas previstas na Aladi não eram acionadas, até porque elas são frouxas."
O grande temor do setor calçadista argentino, por exemplo, é que as importações pulem de 8 milhões de pares, no ano passado, para 17 milhões de pares este ano. Em 1991, a Argentina importava apenas 700 mil pares. "Esses setores, como o de calçados, papel e celulose, siderúrgico, açúcar, e têxteis, entre outros, considerados sensíveis, terão de se adequar ao processo de integração buscando maior competividade", afirmou a fonte do Itamaraty.
De acordo com ele, o Mercosul foi responsável pela queda de 2/3 da produção brasileira de trigo e os produtores gaúchos tiveram de se adaptar a isso.
Hoje, chegam a Montevidéu os técnicos que vão participar da reunião do Grupo Mercado Comum (GMC). A delegação brasileira será presidida pelo subsecretário-geral de Assuntos de Integração e Econômicos do Itamaraty, embaixador José Alfredo Graça Lima. Na quinta feira, será a vez dos ministros Pedro Malan, Luis Felipe Lampreia e Clóvis Carvalho.

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