Brasília, 28 (AE) - O economista Luiz Augusto Bragança, amigo íntimo do ex-presidente do Banco Central, Francisco Lopes, admitiu hoje (28), em depoimento na CPI do Sistema Financeiro, a possibilidade de quebra da Bolsa de Mercadorias e Futuros (BM&F) se o banco Marka viesse a ficar inadimplente.
Bragança também admitiu aos senadores que nunca soube que seu irmão, Sérgio Bragança, tinha sob custódia US$ 1,6 milhão pertencente a Francisco Lopes, conforme bilhete encontrado na casa do ex-presidente do BC.
O economista confessou que chegou a questionar seu irmão, ex-sócio de Francisco Lopes na Macrométrica sobre isso, mas não obteve resposta. "Não sei e nem nunca soube da vida financeira do meu irmão", declarou. Bragança atribuiu a sua convocação para depor na CPI ao fato de ser amigo de Francisco Lopes há cerca de 40 anos. "Quando o Chico começou a ficar em evidência era natural que fossem procurar informações íntimas e aí chegaram no meu nome", disse.
Demonstrando tranquilidade (Luiz Augusto chegou a comer várias bolachas) durante o depoimento, o economista repetiu, diversas vezes, a história da sua chegada a Brasília no dia 13 de janeiro com o também economista Rubens Novaes para acompanhar o controlador do banco Marka, Salvatore Cacciola.
Os senadores estavam muito preocupados em pequenos detalhes, como telefonemas e horários, para pegar alguma contradição com as declarações de Rubens Novaes, feitas poucas horas antes.
O líder do PMDB, senador Jáder Barbalho (PA) viu uma contradição entre os dois depoimentos e deixou a sala comemorando. Segundo o senador, em tese está comprovado que Cacciola era cliente de Rubens Novaes e este, por sua vez, era cliente de Bragança. As conclusões do senador foram feitas com base na conta do Hotel St.Paul, em Brasília, onde Cacciola e Bragança ficaram hospedados. A conta apresenta pelo menos seis telefonemas, três deles de cerca de 15 minutos, de Bragança para o telefone residencial de Rubens Novaes, no Rio de Janeiro, no dia 14.
De acordo com Jáder Barbalho, Novaes havia garantido ter se desligado do problema de Cacciola assim que retornou ao Rio de Janeiro. Mas, para Jáder, Bragança continuou passando relatórios a Novaes, por telefone, configurando a ligação de Cacciola e a Macrométrica. Nos depoimentos, tanto Novaes quanto Bragança garantiram ser amigos e terem trabalhado juntos para o banco Marka, fazendo consultoria, logo após a crise asiática. Agora, segundo ambos, não existia mais essa relação de cliente. "Acho que Cacciola viu em mim uma tábua de salvação", disse.
Como Novaes já havia declarado, Bragança afirmou que foi contactado pelo economista a pedido de Cacciola. O dono do banco Marka, segundo ele, estava desesperado porque sua instituição estava quebrada. "A única coisa que ele me pediu era para ter acesso à diretoria do Banco Central, não necessariamente a Chico Lopes", disse Bragança. O economista argumentou que não viu nenhum mal nisso e que, por isso, não viu problema em acompanhá-lo até Brasília. Em Brasília, segundo Luiz Augusto, Cacciola foi ao BC sozinho.
Novaes voltou para o Rio de Janeiro no mesmo dia e ele permaneceu em Brasília, a pedido de Cacciola. Cacciola teria dito a ele que não tinha conseguido ter acesso a ninguém da diretoria do BC na tarde do dia 13, tendo sido atendido por assessores. No dia seguinte, 14 de janeiro, Luiz Augusto tomou café com Chico Lopes e tocou no assunto do Marka.
Segundo seu relato, Chico Lopes teria ficado indignado e dito a ele que sua amizade de mais de 40 anos não incluía interferências em assuntos internos do Banco Central, que seriam encaminhados, normalmente, dentro dos trâmites normais do banco.
Ao contrário do sentimento dos senadores, na opinião de Bragança o dono do Marka fêz um péssimo negócio com o BC. "Ele perdeu o banco em 24 horas", disse. O economista também afirmou para os senadores que Cacciola não ficou satisfeito com a negociação. "Certamente ele não ficou satisfeito com o acordo"
declarou.

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