Para as mulheres sauditas, a Internet é a janela para o mundo
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quarta-feira, 18 de agosto de 1999
Por Mariam Sami 
Riad (AE-AP) - Elas não podem dirigir, viajar sozinhas, assistir aulas na presença de homens ou aparecer em público sem estarem cobertas dos pés a cabeça, mas muitas mulheres sauditas agora podem navegar, na World Wide Web.
A Internet tornou-se rapidamente uma oportunidade para as mulheres satisfazerem sua ânsia por conhecimento, frequentemente restringida por rigorosas tradições. "Ela aguçou meu apetite para que eu perseguisse meus objetivos", diz Salwa Al-Qunaibet, operadora de computadores do departamento de censura. "Além disso, dá mais confiança quando é preciso enfrentar o mundo e oferece conhecimento e cultura. Por que deveríamos perder tudo isso?", questiona.
Ela provavelmente está entre as primeiras mulheres a usar a Internet no país. Salwa já navegava há um ano quando o governo decidiu permitir, em janeiro, a operação de provedores locais de Internet. Antes disso, estima-se que 40 mil assinantes conectavam-se com provedores nos EUA, Bahrain e Chipre. Agora, acredita-se que eles sejam 65 mil e há indícios que este número vá atingir a marca dos 115 mil no final deste ano.
AwalNet é o único provedor saudita a oferecer seções especiais para mulheres internautas, uma adição aos bancos, escolas e lojas designados "só para mulheres" que abundam nesse reino desértico.
As mulheres que entram nos escritórios específicos para elas da AwalNet podem deixar cair seus longos "abayas" de seda, pois sabem que os homens irão olhá-las da mesma forma que o fazem mas lojas ou ruas. O setor feminino está localizado entre lojas que vendem perfumes, sapatos e roupas de um grande shopping center. O escritório principal está localizado numa parte separa do shopping, que estende-se sobre quase dois quarteirões.
Os funcionários da seção "só para mulheres" oferece às visitantes uma apresentação gratuita sobre Internet e facilidades como e-mail. Cerca de 300 mulheres fizeram suas assinaturas depois de uma ronda virtual pelos computadores, afirma Maiadah Al-Fauuaz, que era responsável pelo marketing da companhia antes de retornar, recentemente, a lecionar na Universidade Rei Saud em Riad.
Não há números precisos sobre a quantidade de mulheres que acessam a rede pelos provedores convencionais.
Muitas mulheres não estão acostumadas a conviver com homens e até mesmo o chamado de um técnico sobre um defeito pode tornar-se um problema, diz a responsável pelo departamento feminino da AwalNet, Manal Al-Shiddi, pós-graduada em odontologia pela Universidade Rei Saud, para quem a Internet foi a porta de acesso às últimas pesquisas médicas.
As mulheres sauditas passeiam com suas famílias e suas amigas
mas continuam a passar longas horas em casa. Al-Fauuaz conta histórias de mulheres que tornaram-se tão viciadas que compram horas extras de acesso mesmo antes dos seus contratos de três o seis meses terem expirado.
A medida em que mais mulheres sauditas entram para o mercado de trabalho, mais irão utilizar a Internet. Al-Fauuaz disse que uma assinante conseguiu seu primeiro emprego por causa dos livros que havia lido na Internet. Outras planejam home pages para anunciar produtos vendidos em suas butiques.
A AwalNet mantém uma home page com links em árabe e inglês para sites femininos com dicas de moda, cuidados infantis e fatwas, as regras religiosas. Mas há muito mais opções na Internet que os internautas sauditas, tanto homens mulheres não podem acessar.
O grupo Human Rights Watch acusou a instituição King Abdul-Aziz City for Science and Technology, localizada em Riad de ter estabelecido uma "parede de fogo" contra sites com conteúdo sexual explícito e contra aqueles cujo conteúdo político possam incitar a queda da realeza saudita, que a oposição descreve como déspotas que abusam da riqueza do país.
Todos os provedores do reino são alimentados pelo centro científico controlado pelo governo, que afirma que sua missão é elevar os valores sociais, prevenindo a exposição da população a sites que tragam sexo explícito ou possam enfraquecer o Islã.
A situação é similar em toda a região. Human Rights Watch diz que Bahrain comprovadamente empregou peritos estrangeiros em computação para vigiar internautas que pretendem abrir sites políticos bloqueados.
O grupo afirma também que as autoridades dos Emirados árabes dizem que não vigiam os internautas, mas confirmaram a compra de serviços de uma empresa norte-americana para bloquear os sites indesejáveis.
Na Arábia Saudita não é apenas o governo que encara a Internet com ressalvas. Basma Al-Rashed, funcionário da AwalNet, disse que os administradores das escolas femininas fazem objeções à entrada da Internet em suas instituições por temer o que suas pupilas possam ler ou escrever nas salas de bate-papo. Al-Rashed e sua colega americana Sarah Murad dizem que as mães também temem que suas filhas sejam expostas às conversas "indecentes" das salas de bate-papo. "Muitas garotas entre 15 e 25 anos interessam-se exatamente pelas salas de bate-papo", diz Murad. "Eu digo a elas para ficaram anônimas". A home page da AwalNet é: www.awalne.net.sa. Seu link Laki Anti, Arabic "for you lady" é o site feminino.


