Para analistas, Milosevic está ganhando a guerra
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terça-feira, 13 de abril de 1999
Por Paul Taylor, editor diplomático 
Londres, 14 (AE-REUTERS) - Enquanto a guerra de Kosovo entra em sua quarta semana, muitos analistas consideram que o presidente iugoslavo, Slobodan Milosevic, está ganhando a batalha.
"Até agora, não estamos ganhando. Não estamos alcançando nossos objetivos. Se nossa meta era fazer com que Milosevic retirasse suas forças e parasse de intimidar os kosovares, o que tem ocorrido é o contrário", disse William Hopkinson, analista de defesa do Instituto Real de Assuntos Internacionais da Grã-Bretanha.
As esperanças de líderes da Otan de uma breve guerra aérea, na qual Milosevic cederia depois de alguns mísseis de cruzeiro, evaporaram.
Depois de três semanas de bombardeios, os aliados não conseguiram eliminar as defesas aéreas ou impedir que forças sérvias expulsassem centenas de milhares de albaneses étnicos de suas casas e do país.
Tampouco eles deram início a sérias preparações para uma ofensiva terrestre que muitos generais da reserva e analistas estratégicos dizem será necessária, mas que líderes ocidentais insistem não está planejada.
"Neste estágio, Milosevic ainda tem a vantagem estratégica, porque para o Ocidente inflingir danos não é um objetivo estratégico, enquanto os sérvios estão alcançando seu objetivo estratégico de mudar a balança demográfica em Kosovo", afirmou Zeev Schiff, um veterano analista de estratégia de Israel.
Numa entrevista por telefone, ele classificou a conduta de guerra até agora de "meio grávida" e disse que estava claro desde o início que apenas uma campanha aérea não seria suficiente para se alcançar os objetivos.
"Ela foi cuidadosamente equivocada e está claro que eles têm de repensar tudo desde o início - e quanto mais cedo melhor", afirmou Schiff.
Ele também mostrou-se perplexo com o fato de os sofisticados bombardeiros de alta tecnologica da Otan estarem sendo prejudicados pela nebulosidade.
"Até o momento, a guerra é um desastre", disse Dana Allin, uma especialista em Bálcãs no Instituto Internacional de Estudos Estratégicos.
"A Otan alega estar inflingindo grandes danos, mas eles não modificaram nada. Enquanto isto, Milosevic está ganhando a guerra demográfica no campo, expulsando albaneses étnicos de Kosovo".
Allin afirmou que o maior problema da Otan é o fato "inexplicável e imperdoável de (os governos ocidentais) não terem imaginado que Milosevic iria recorrer à limpeza étnica nesta escala".
A Alemanha tem dito que tem evidências de que Belgrado há muito tinha planos de uma ofensiva para expulsar albaneses étnicos da província sérvia, sob o codinome Operação Ferradura, e o vinha implementando antes do início dos bombardeios da Otan, em 24 de março.
O mar de refugiados, e seus relatos de estupro e assassinatos, consolidou o apoio público ocidental à guerra e fez com que ficasse politicamente difícil para os governos da Otan aceitar qualquer coisa menos que uma clara vitória sobre Milosevic.
As apostas políticas são agora tão altas que qualquer compromisso como uma partição de Kosovo seria denunciado como uma traição.
Ainda assim, líderes ocidentais descartam armar o Exército de Libertação de Kosovo (ELK) e se opõem à independência de Kosovo com o argumento de que isto iria desestabilizar Estados da região.
O fluxo de refugiados já desestabilizou os vizinhos de Kosovo, Macedônia e Albânia, assim como a pequena república iugoslava de Montenegro, estendendo a progressiva instabilidade que a Otan pretendia parar, e impondo demandas conflitantes aos recursos militares.
Fontes militares dizem que uma das razões pelas quais está levando tanto tempo para colocar em operação na Albânia os helicópteros americanos Apache, próprios para ataques a tropas terrestres, é que seu único grande aeroporto está sufocado com vôos humanitários.
Comandantes militares da Otan argumentam que a aliança não pode lançar do ar alimentos para dezenas de milhares de civis desalojados cercados em zonas de combate dentro de Kosovo porque os pesados aviões de transporte seriam derrubados.
Segundo estimativas da Otan, cerca de 260.000 albaneses étnicos estão sobrevivendo em montanhas e florestas de Kosovo ou em casas e fazendas parcialmente queimadas.
O quadro sombrio pintado por muitos analistas contrasta dramaticamente com avaliações otimistas oferecidas por líderes da Otan. O comandante-supremo da Otan, o general americano Wesley Clark, vem proclamando toda a semana que "Milosevic está perdendo e ele sabe disto".
Mas o comandante da Otan reconhece que está lutando com uma mão amarrada nas costas por causa de rígidas regras de engajamento para evitar vítimas civis, e um mandato para conduzir operações aéreas sem uma campanha por terra.
"Estamos fazendo todo o possível para usar o mínimo de força", afirmou Clark.
Vários analistas dizem que o pedido de Clark por mais 300 aviões de combate dos EUA, que se somarão aos 800 aparelhos que a Otan já tem na campanha, era uma admissão tácita de que a Otan começou com forças insuficientes e não calculou corretamente o golpe que precisaria dar para fazer Milosevic se curvar.
Outros argumentaram desde o início que não havia precedente histórico de que apenas com uma campanha aérea tenha-se conseguido a vitória.
O general retirado francês Philippe Morillon, um veterano das malsucedidas operações de manutenção da paz da ONU na Bósnia, sugeriu no início que a Otan iria fracassar caso não estivesse preparada para sofrer baixas numa guerra terrestre.
"A teoria americana de "zero mortos" é a melhor forma de acabar sendo totalmente ineficaz. Quem são esses soldados que estão prontos para matar mas não estão prontos para morrer?", perguntou.
A mesma crítica é ouvida na neutra áustria, onde vários comentaristas estão dizendo que é absurdo a Otan ter uma avassaladora máquina de guerra mas ser tímida demais para usá-la por temer que a opinião pública não irá aceitar.
"Para que, por favor, são os soldados?", questionou o editor da revista Format, Christian Ortner, num editorial.
Entretanto, alguns estrategistas dizem que talvez Milosevic tenha errado na mão e provocado a Otan para uma guerra total para a qual ela inicialmente não tinha estômago.
Jonathan Eyal, do britânico Instituto Real de Serviços Unidos, afirmou que o líder sérvio não conseguiu quebrar o consenso da Otan ou usar a Rússia para forçar um acordo em seus termos.
"Na verdade ele tem solidificado a oposição ocidental a ele de forma que não conseguimos obter em uma década. Ele está perdendo a guerra", disse.
"O maior imponderável é se a Iugoslávia irá implodir ou entrar em colapso. Um vazio no meio dos Bálcãs é tão perigoso para nós quanto uma Sérvia que joga seu peso sobre os vizinhos".


