Brasília, 26 (AE) - A marcha da oposição serviu como um sinal de alerta para o governo, segundo opinião de aliados do presidente Fernando Henrique Cardoso. As principais lideranças aliadas e até integrantes do próprio Executivo fizeram uma avaliação positiva do movimento destacando o aperfeiçoamento da democracia no País. Mas para os governistas, a marcha servirá como uma reflexão sobre os principais problemas enfrentados pelo Brasil, inclusive na área econômica.
A análise mais incisiva foi feita pelo presidente da Câmara, deputado Michel Temer (PMDB-SP), que voltou a cobrar uma flexibilização da economia. "Essa manifestação é um alerta para o governo de que alguma coisa deve estar acontecendo no País e de que é preciso redirecionar a economia e realizar uma melhoria social", disse Temer, logo depois de receber as lideranças oposicionistas no salão negro do Congresso Nacional.
"A marcha é um sinal de que o governo não pode ficar inteiramente alheio ao que está acontecendo e deve tomar providências; afinal não dá para ignorar um ato de 50 mil pessoas", disse o peemedebista. Mas Temer não foi a única voz entre os aliados a entender o recado da oposição. O líder do governo no Cogresso, deputado Arthur Virgílio (PSDB-AM), disse que a marcha serve para lembrar que é "hora de o presidente Fernando Henrique colocar o pé na estrada e de que o governo precisa melhor sua comunicação com o País".
O líder do PFL na Câmara, deputado Inocêncio Oliveira (PE), fez uma avaliação semelhante. "A manifestação servirá como uma reflexão para que as críticas que foram feitas sobre a situação da saúde, educação e desemprego no Brasil, possam fazer uma correção dos rumos no governo", comentou.
Inocêncio ficou com o presidente por uma hora no Palácio do Planalto, acompanhado da bancada pernambucana no Congresso. Durante a audiência, Fernando Henrique chegou a receber um telefonema do presidente do Uruguai, Julio María Sanguinetti, preocupado com a marcha.
"O problema é que tudo que acontece no Brasil acaba acontecendo também no Uruguai", disse Sanguinetti, segundo relato de Fernando Henrique para os parlamentares pernambucanos. "Não se preocupe que foi uma manifestação ordeira e democrática", teria respondendo o presidente.
Logo depois do encontro, Fernando Henrique foi para o Alvorada, onde ficou acompanhando o desempenho da marcha pela televisão e recebendo relatos de auxiliares. Às 14h40, o secretário de Direitos Humanos, José Gregori, ligou para o presidente para informar que ex-governador Leonel Brizola (PDT) estava discursando naquele momento enquanto vários manifestantes tomavam banho no "laguinho construído por ACM". Bem humorado, o presidente ressaltou que a manifestação comprovou a solidez democrática do País.
Esta avaliação também foi feita pelo ministro da Justiça, José Carlos Dias. "Acho que este ato teve o mérito de consolidar a democracia no País, como uma grande celebração dos 20 anos de anistia", disse Dias, comemorando o aspecto pacífico da marcha. O ministro informou que de agora em diante terá encontros periódicos com o presidente do PT, deputado José Dirceu (PT), para aprofundar a discussão sobre os problemas do País.
Já o ministro da Reforma Agrária, Raul Jungmann, disse que a marcha foi positiva, porque se registrou nenhum incidente, mas avaliou que o movimento fracassou quando não colocou o número de pessoas anunciadas pelos organizadores do evento. "Mas independente da quantidade, o número de pessoas nas ruas serviu de alerta para o governo de que alguma coisa vai mal", avaliou Jungmann.
"Quando o povo vai às ruas, o governo democrático se antena". O ministro do Trabalho, Francisco Dornelles, também observou a importância política da marcha. "O governo e a oposição ganharam porque o movimento aconteceu em clima de tranquilidade", disse Dornelles. Para ele, a marcha trouxe para o Planalto uma preocupação da sociedade. "Todo movimento popular tem que ser examinado com atenção e humildade".
Já o ministro das Comunicações, Pimenta da Veiga, minimizou a importância do movimento. "Foi um ato exclusivamente político-partidário", disse Pimenta. "A marcha passou e as consequências foram menores do que imaginaram." Para ele, o momento é de se falar no "grande futuro" do desenvolvimento econômico e social do País. "O governo vai aprofundar medidas para cumprir a etapa de desenvolvimento que já começou", anunciou o ministro. "Antes a âncora do Real era a restrição e agora vai ser o desenvolvimento."

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