Para 65%, mulher com roupa curta merece ser atacada
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quinta-feira, 27 de março de 2014
Lucio Flávio Cruz<br>Reportagem Local 
Londrina - A maioria dos brasileiros concorda com a ideia de que marido que bate na esposa deve ir para a cadeia, revelou pesquisa divulgada ontem pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea). Batizado de Sistema de Indicadores de Percepção Social (SIPS), o trabalho se baseou nas entrevistas de 3.810 pessoas, residentes em 212 municípios no período entre maio e junho do ano passado. A pesquisa mostra que 91% dos entrevistados concordam total ou parcialmente com a prisão dos maridos que batem em suas esposas. O estudo alerta, no entanto, que é prematuro concluir, com bases nesses dados, que a sociedade brasileira tem pouca tolerância à violência contra a mulher.
Dos entrevistados, 63% disseram concordar com a ideia de que "casos de violência dentro de casa devem ser discutidos somente entre membros da família". "Isso não é uma questão familiar. A agressão de mulheres é uma epidemia mundial e impacta na saúde dos filhos e das vítimas e na vida das pessoas, por isso precisa ser um preocupação pública. Só no âmbito familiar o problema não será resolvido", ressaltou Susana Lacerda, promotora da Vara Maria da Penha de Londrina.
Causou espanto entre os próprios pesquisadores o fato de que 65% disseram concordar com a frase: "mulheres que usam roupas que mostram o corpo merecem ser atacadas". Isso deixa claro para os autores do trabalho a forte tendência de culpar a mulher pelos casos de violência sexual.
A avaliação tem como ponto de partida o grande número de pessoas que diz concordar com a frase: se mulheres soubessem se comportar, haveria menos estupros. O trabalho indica que 58,5% concordam com esse pensamento.
"Muitas mulheres realmente se sentem culpadas pela agressão, o que não traduz a realidade. As vítimas entram em um ciclo de violência e não conseguem sair sozinhas. É preciso apoio de profissionais e terapias individuais e coletivas. Caso contrário, cedo ou tarde a violência vai se repetir", frisou Eunícia Lohn, coordenadora do Centro de Referência da Mulher em Curitiba.
"A maneira de se comportar não justifica uma agressão. A mulher tem o direito de fazer o que quiser com seu corpo e não pode se sentir culpada por isso", apontou Lucimar Rodrigues da Silva, diretora de Enfrentamento da Violência Contra a Mulher da Secretaria Municipal de Políticas para as Mulheres de Londrina.
A conselheira da organização não governamental (ONG) Espaço Mulher, Ludmila Nascarella, entende que essa situação é "triste e lamentável" e reflete a realidade atual. "As mulheres estão tomando mais coragem em denunciar a violência, apesar de continuarem sendo vítimas. A cada dois segundos uma mulher é agredida na América Latina", apontou.
A pesquisa do Ipea também revela que a maior parte dos brasileiros se incomoda em ver dois homens ou mulheres se beijando. Dos entrevistados, 59% relataram desconforto diante da cena. A relação afetiva entre pessoas do mesmo sexo também não tem uma aceitação expressiva. Das pessoas ouvidas, 41% disseram concordar com a frase: "um casal de dois homens vive um amor tão bonito quanto entre um homem e uma mulher". E 52% concordam com a proibição de casamento gay. (Com Agência Estado)



