Papéis de ex-secretária trazem novas informações no caso de GO
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quinta-feira, 11 de março de 1999
Por Eliane Azevedo (enviada especial) 
Goiânia, 12 (AE) - O Ministério Público Estadual está analisando documentos bancários fornecidos pela ex-secretária do comitê financeiro da campanha do hoje senador Maguito Vilela (PMDB-GO) ao governo do Estado, em 1994, que apontam a coincidência na sequência de números da autenticação mecânica de caixa entre a ordem de pagamento do empréstimo do Banco do Estado de Goiás (BEG) à empresa Astro Gráfica, no valor de R$ 3.350.000, e o depósito em dinheiro na conta de fornecedores da campanha. Isso demonstraria que o empréstimo seria fraudulento e serviria para desviar recursos do banco para o partido.
Segundo a ex-secretária, Eliete Luiza de Souza Rezende, de 34 anos - prima em segundo grau do senador Íris Rezende (PMDB-GO), o próprio diretor do BEG Walmir Martins, que também trabalhava no comitê financeiro da campanha, foi quem descontou a ordem de pagamento na agência do Banco do Brasil em Goiânia e fez os depósitos para credores.
Eliete trabalhava diretamente para o coordenador financeiro da campanha, Geraldo Bibiano, que era assessor especial do então governador Íris Rezende e, no governo de Maguito Vilela, foi secretário extraordinário de Governo.
Eliete, que está sob proteção policial a pedido do Ministério Público, contou hoje que, no final de novembro de 1994, o PMDB devia a vários fornecedores. Em conversas na sede do comitê, ela ouviu Martins comentar que viajaria para Belo Horizonte - o empréstimo à Astro Gráfica foi feito por intermédio do BEG da capital mineira, onde a empresa tinha conta. "Ele me entregou, um dia, uma ordem de pagamento e recibos de depósito para vários fornecedores, entre eles, a Astro Gráfica, e pediu para eu entregar esses recibos aos destinatários", disse ela. "Mas acabei não encontrando quatro deles e guardei os recibos e essa ordem de pagamento do BEG de Belo Horizonte ao Banco do Brasil".
Recibo - O promotor Abrão Amizy Neto, encarregado do caso, explicou que, na verdade, o documento que Eliete guardou não é a ordem de pagamento, mas o comprovante de recolhimento do Imposto Sobre Movimentação Financeira (IPMF). O recibo não traz o nome do emitente da ordem de pagamento, mas o do destinatário: Vanieri Moreira Oliveira, dono da Astro Gráfica. Os comprovantes de depósito feitos para quatro fornecedores seguem a numeração de autenticação mecânica do recibo do IPMF. Um dos depósitos foi feito para a Astro Gráfica, no valor de R$ 431,2 mil.
O Ministério Público começou a investigar o caso em 1995, suspeitando do valor do empréstimo - pelas regras do BEG, o patrimônio da gráfica só permitiria um empréstimo de até R$ 73 mil. "Se a Astro Gráfica tinha conta no BEG de Belo Horizonte, por que foi emitida uma ordem de pagamento para o Banco do Brasil, em vez de simplesmente se creditar o valor em conta?", questinou. A quebra do sigilo bancário da gráfica foi negada pelo Superior Tribunal de Justiça (STJ), mas, com os novos documentos, Amizy vai entrar com novo pedido no início da semana.
Ele afirmou que uma outra testemunha, mantida em sigilo, revelou que a operação foi feita com a participação de um terceiro banco, que teria emitido a ordem de pagamento para a Astro Gráfica. O Ministério Público quer saber também se Martins foi pessoalmente receber o dinheiro - para isso, teria de estar acompanhado de algum diretor da Astro Gráfica. Como o empréstimo foi quitado em março de 1995, rigorosamente dentro do prazo, o promotor vai investigar quem realizou o pagamento. A reportagem rocurou Martins, Bibiano, Oliveira e Vilela para responder às acusações, mas, até o final da tarde, não haviam respondido aos recados.
Conta - O nome de Eliete surgiu na esteira de um outro escândalo: o da verba secreta coordenada por Geraldo Bibiano na Secretaria de Governo da gestão Maguito Vilela, onde era secretária. Ela foi exonerada, depois de um inquérito administrativo, quando houve uma denúncia ao Ministério Público sobre as contas bancárias em nome de funcionários que alimentariam a compra de presentes para a primeira-dama, roupas para o governador e objetos pessoais do casal. A ex-secretária era a titular de uma dessas contas. "O Dr. Bibiano abriu essa conta em meu nome, sem minha autorização, e me fazia deixar talões de cheques assinados em branco com ele", afirmou.
O saldo da conta era mantido, segundo ela, em R$ 50 mil e o depósito era feito por ordem de pagamento da Secretaria Estadual de Fazenda. Eliete disse que, na secretaria, outros três funcionários também eram titulares de contas da verba secreta. Quando o MP começou a investigar o assunto, conta ela, Bibiano teria dito que ninguém seria demitido. Mas, com o caso nos jornais, Eliete - segundo sua versão - foi convencida por seu chefe a assumir os gastos irregulares feitos com a verba. Em troca, Walmir Martins teria arrumado para ela o emprego de auxiliar de escritório numa empresa que prestava serviços para o BEG. "Era até melhor, porque eu ganhava R$ 350 no Estado e passei para um salário de R$ 750", admitiu.
Com a derrota do PMDB nas eleições passadas, o quadro mudou: o caso foi reaberto e Eliete decidiu contar sua história. "O Dr. Bibiano tinha me dito que se responsabilizaria por aquela conta e, sempre que eu questionava a legalidade daquilo, me repetia isso, dando socos na mesa", afirmou. "Estou magoada, sim, porque não vou levar a culpa e sujar meu nome por algo que não fiz". Em seu depoimento ao MP, Eliete acabou interrogada também sobre a Astro Gráfica e lembrou-se dos documentos, que guardou em casa durante anos. "Eu só liguei aqueles recibos ao empréstimo da Astro Gráfica quando o escândalo estourou, mas não ia falar nada - eles eram o poder, né?", disse.
Ela garantiu não ter feito acordo com o promotor para ser inocentada num caso, se fosse testemunha do outro. "Não há necessidade, porque é fácil mostrar que eu não usava aquela conta", garantiu. Segundo Amizy, o fato de Eliete admitir que seu testemunho tem um componente de revanche não a desqualifica. "O Ministério Público está trabalhando com documentos, com provas, e não com a palavra de alguém", afirmou.


