Papa, visitando cidade onde Jesus nasceu, defende direito palestino a uma pátria
Belém, 22 (AE-AP) - O papa João Paulo II rezou hoje (22) na cidade do nascimento de Jesus, onde beijou o solo palestino oferecido a ele numa bandeja depois de receber calorosas boas-vindas do presidente da Autoridade Palestina, Yasser Arafat.
Belém estava enfeitada com bandeiras palestinas e do Vaticano, em clima de festa que ficou mais intenso após o discurso do sumo- pontífice, considerado um vigoroso aval à criação de um Estado palestino.
"Ninguém pode desconhecer quanto o povo palestino tem sofrido nas últimas décadas", disse João Paulo II. "Seu tormento está perante os olhos do mundo e já passou muito tempo", acresentou, para enfatizar que o povo palestino "tem o direito natural a uma pátria e o direito de viver em paz e em tranquilidade com os demais povos desta área".
Após a reunião com Arafat, o papa seguiu no papamóvel blindado até a Praça do Presépio, onde era esperado por uma multidão emocionada, que gritava "viva o papa", em árabe. O sumo-pontífice afirmou que Belém era o centro de sua peregrinação e sempre sonhara visitar a Terra Santa às vésperas do terceiro milênio da cristandade. "Agradeço a Deus por trazer-me neste ano do jubileu ao lugar do nascimento do Salvador", disse lentamente mas em tom firme.
Quando o papa terminou a homilia, ouviu-se o chamado para a oração muçulmana, feito por um muezin na mesquita da mesma praça. O papa e seus auxiliares interromperam a missa e esperaram até o fim do chamado. O porta-voz do Vaticano, Joaquín Navarro-Valls, comentou depois que a superposição de orações tinha sido "mútua e respeitosa".
Depois de uma pausa, João Paulo II regressou à praça para visitar a Igreja da Natividade, onde uma gruta é reverenciada como o local do nascimento de Jesus, para novas orações.
A próxima etapa do programa foi uma visita ao campo de refugiados de Deheishe, na área de Belém, considerado tanto um símbolo dos sofrimentos palestinos quanto das esperanças de criação de um Estado. No campo, criado em 1949, vivem 9.600 pessoas, quase todas muçulmanas.
O papa, que sofre do mal de Parkinson, entrou em Deheishe apoiado na mão de Arafat. Ao discursar numa escola para crianças, o papa voltou a falar sobre a urgente necessidade de uma solução justa para o problema dos refugiados, pedindo a "todos os poderes políticos a implementação de acordos e o avanço na direção da paz".
Para muitos, ao beijar simbolicamente o solo, o papa expressou o reconhecimento da Palestina como um Estado de fato, mas o porta-voz Navarro-Valls procurou minimizar o efeito político: "Teria sido muito estranho se o papa não beijasse a terra do local onde Jesus nasceu".
Autoridades israelenses limitaram-se a observar que o papa apenas confirmava a posição já conhecida do Vaticano.
Arafat, por sua parte, chamou o papa de um "estimado convidado da Palestina, e de sua eterna capital, Jerusalém".
A afirmação de Arafat seguiu-se a declarações feitas por israelenses ontem na chegada do papa de que Jerusalém era a capital eterna do Estado judeu.
A caminho de Belém, o papa fez uma parada nas margens do rio Jordão, num dos dois lugares tido como o local onde Jesus foi batizado. Nenhum jornalista esteve presente durante a breve visita ao local, agora um zona militar israelense fechada.
O Congresso Judaico Europeu distribuiu documento em que pede a João Paulo II, na sua visita de amanhã ao Memorial do Holocausto, o Yad Vashem, em Jerusalém, que faça uma "declaração solene", condenando o anti-semitismo, e mencionando o "silêncio diante do inominável", atribuído à Igreja.





