Roma, 23 (AE) - Começará amanhã (24) a viagem de João Paulo II ao Egito. Trata-se da primeira etapa de uma peregrinação pelos lugares que marcaram o início do cristianismo e terá como ponto alto a visita a Israel, no dia 20 de março.
É a primeira vez que um papa visita o Egito, que tem 65 milhões de habitantes, 94% dos quais muçulmanos. Apenas 6% da população é cristã e, assim mesmo, dividida em diversos ritos. O grupo maior é o dos coptas - cristãos ortodoxos. A Igreja Católica conta com apenas 200.000 fiéis. Na 90ª viagem de seu pontificado, Karol Wojtyla, que vai completar 80 anos em maio, será recebido pelo presidente Hosni Mubarak. Os dois líderes deverão falar sobre os problemas dos cristãos no mundo árabe, sobre o papel da Santa Sé no processo de paz no Oriente Médio e, especialmente, sobre o futuro de Jerusalém.
O recente acordo, assinado por representantes da Igreja e por Yasser Arafat, no Vaticano, define como moralmente e juridicamente inaceitável qualquer decisão unilateral de Israel sobre Jerusalém. O texto provocou dura reação israelense. Mas esse deve ser o único momento em que o tema não será religioso. O papa fez questão de definir a viagem como "estritamente religiosa e espiritual".
Em seus três dias de permanência em território egípcio, o pontífice terá encontros com Shenuda III, autoridade máxima da igreja copta ortodoxa, e o Imam Sayed Tantawi, a maior autoridade sunita do mundo muçulmano. O encontro, visto como um fato extraordinário, será em Al Azhar, a mesquita-universidade que é o maior centro espiritual e cultural do mundo islâmico.
"A visita do papa vai contribuir para a redução das barreiras que existem há centenas de anos entre as diversas religiões", declarou o bispo copta católico Youhanna Qolta, encarregado da organização da viagem. Para ele, o encontro com o Imam Tantawi "é o coroamento de um diálogo iniciado há mais de 20 anos entre cristãos e muçulmanos sunitas, principalmente no que se refere aos valores morais e sociais".
Apesar do esforço de Mubarak em harmonizar as relações entre as duas comunidades, episódios violentos têm sido registrados com frequência entre a maioria islâmica e a minoria cristã. No fim do ano passado em al-Koshh morreram 30 pessoas. Segundo fontes católicas, o islamismo tem crescido muito no Egito graças aos incentivos do Estado. Entre 1981 e 1999, o número de mesquitas passou de 5.600 para 29.701.
O programa do papa prevê a celebração de uma missa na manhã de sexta-feira para a comunidade católica no estádio coberto do Cairo. O local tem capacidade para 20.000 pessoas mas, por motivo de segurança, serão admitidas apenas 15.000.
À tarde, João Paulo II participa de um encontro ecumênico com os responsáveis pelas diversas igrejas cristãs presentes no país e, no sábado, inicia a peregrinação ao Monte Sinai, onde Moisés recebeu os dez mandamentos e a incumbência de libertar o povo judeu da escravidão egípcia. No fim da tarde, o papa irá de helicóptero ao Cairo de onde retornará a Roma.
Terminará assim a primeira etapa da viagem que é um dos grandes desejos do pontífice. João Paulo II havia falado sobre ela já em seu primeiro Natal como papa, em 1978, e a citou em várias ocasiões, inclusive na carta de preparação do Jubileu, em 1994.
"Quero seguir as pegadas do povo de Deus que começa com Abraão", confessou aos jornalistas durante uma de suas viagens. "Disseram que sou o novo Moisés e como ele terminarei esse meu errar pelo mundo na Terra Santa."

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