Paris, 25 (AE) - O papa João Paulo II foi bem claro: viajou para a Palestina unicamente para "seguir os passos de Jesus". Os que esperassem efeitos políticos dessa visita abrigariam falsas expectativas. Confessemos que João Paulo II mostrou-se um profeta muito vacilante (entretanto, em vista do posto que ele ocupa, deve ter facilidades para prever o futuro...). Com certeza, sua peregrinação reveste-de de um cunho religioso muito nobre, mas foi também uma grande viagem política - quer o papa o tenha desejado, apesar de seus desmentidos, quer o aspecto "político" tenha avassalado o aspecto "religioso", o tenha invadido e engolido...
João Paulo II é muito inteligente para ficar surpreso com isso: os aspectos religioso e político são apenas os dois lados de uma mesma moeda. E isso mais em Israel do que em qualquer outra parte. Israel, que tem a característica singular de ser uma única terra, dois povos e três religiões.
Uma só terra. E isso coloca a questão dolorosa: qual é o destino desses palestinos que vivem na Palestina, mas sem um "Estado" (por enquanto) e submetidos a um sofrimento infinito? João Paulo II, apesar de suas promessas de não entrar no campo político, não deixou de enfrentar o obstáculo. Disse o que todos sabem, mas que se torna mais terrível, quando reconhecido por ele: "Vossos sofrimentos seculares estão durando demais."
ávido de grandes espetáculos, João Paulo II completou seu ensinamento visitando o campo de refugiados palestinos de Deheish. Encantado, Arafat, o líder dos palestinos, não se enganou. Considerou a passagem do pontífice como um reconhecimento "de fato" do Estado palestino. E este foi o comentário do jornal alemão Suddeutsche Zeitung: "Os palestinos marcaram: 1 a 0!" No momento, os israelenses não resmungaram. Estavam se reservando para a etapa seguinte, Jerusalém, a cidade "três vezes santa" (Bíblia, Evangelho e Corão). E ali, João Paulo II ficou aborrecido. Na tarde de quinta- feira, ele estava meio triste no centro Notre Dame - a propriedade vaticana de Jerusalém.
Certamente, houve a mesma elegância, a mesma cortesia, mas os israelenses repetiram durante todo o dia a mesma mensagem. "Jerusalém é a capital de Israel." O presidente israelense, o primeiro-ministro, o prefeito israelense de Jerusalém, todos martelaram: "Jerusalém, capital de Israel, eterna cidade da fé."
Mais discreto, o grão-rabino Meir Lau agradeceu ao papa por ter "reconhecido o Estado judeu independente, com sua capital eterna, Jerusalém" (Naturalmente, isso não é exato e o rabino o sabia muito bem). Para um homem como João Paulo II, que há 20 anos se esforça denodadamente para lançar pontes entre as três religiões, a lição foi dura: o lirismo religioso saiu em frangalhos desse desagradável choque com os arames farpados da História...
E ainda não foi o bastante. Desta vez, da parte dos próprios árabes, a mesma ducha fria. O mufti Ikram Sabri recusou o convite do papa porque não queria ficar lado a lado com "rabinos". Outro alto representante muçulmano, o xeque Taysir Tamini, foi ocupar seu lugar um pouco mais tarde. Tamini, apoiado por mulheres palestinas cobertas com o véu muçulmano, lançou um ataque denunciando a ocupação israelense, os assentamentos judaicos, a proibição da volta dos refugiados de 1948.
E, para terminar, o alto representante árabe, referiu-se por sua vez a Jerusalém como "a eterna capital do Estado palestino". Portanto, no espaço de algumas horas, Jerusalém foi proclamada a capital dos dois Estados rivais, o judeu e o árabe, e, nos dois casos, a capital "eterna".
Restava ainda uma frente: entre católicos e judeus. O encontro se realizou no lugar consagrado ao terror, à Shoá (Holocausto), aos 6 milhões de judeus queimados por Hitler. O gesto foi importantíssimo: o papa reconheceu ao mesmo tempo o Estado judeu e o local da memória do genocídio. Continuou assim uma longa caminhada inaugurada no início de seu pontificado. Normaliza em 1993 as relações do Vaticano com o povo judaico. Mas também comete gafes.
E, depois, o mais grave: os judeus não compreendem que o papa, cujo desejo de reencontro é apesar disso sincero, possa deixar passar em silêncio o comportamento da Igreja durante a guerra. Persuadidos de que o papa daquela época, Pio XII, não manteve uma atitude firme em relação aos nazistas, os judeus esperavam que João Paulo II, em sua "crise de arrependimento universal" (Galileu, Darwin, Inquisição, etc...), acrescentasse um novo pedido de perdão, perdão pelo silêncio de Roma durante o Holocausto. Até agora, João Paulo II, embora tenha pedido perdão pelas faltas cometidas pela Igreja desde o início da era cristã contra os judeus, não falou de Pio XII. Alguns esperavam que o fizesse no memorial Yad Vashem. Em vão.
Seria isso uma recusa em acreditar que Pio XII cometeu um erro? Ou antes, uma incapacidade de reconhecer os erros do Vaticano num período que ainda está sangrando? Ou ainda, diante deste momento "indizível", que foi o Holocausto, João Paulo II estaria reagindo como reagiu um grande pensador judeu, Emmanuel Levinas, que designava a Shoá como um acontecimento "tão indecifrável" que só permite "o silêncio"?
Admitamos. Mas então, como não pensar que o memorial dedicado aos 6 milhões de judeus queimados era a ocasião de "fazer ouvir este silêncio", se assim se pode dizer? E então? Esse João Paulo II, cuja peregrinação rumo às reconciliações já dura 20 anos, teria parado no exato momento em que podia completá-la (mais ou menos como Moisés teve o direito de contemplar Canaã, mas não de entrar nela às vésperas de sua morte)? Não seria melhor pensar que o percurso ainda não terminou e que ele continuará?
Relembremos o caminho percorrido: tradicionalmente, o ensinamento da Igreja sobre os judeus foi o do desprezo, desprezo cujos efeitos a história ilustrou (os pogroms, os guetos, etc.) ao longo dos tempos e que ainda continuam, como um tampão indelével, nos "inconscientes" de muitos católicos: lembremos que a cultura antijudaica estava ainda em seu pleno vigor na primeira metade do último século (desprezo até mesmo dos textos: o Antigo Testamento não era lido em família!) e foi preciso esperar a década de 1950 para que a cultura do desprezo fosse seguida pela cultura da estima. O próprio Concílio Vaticano II, embora tenha aberto enfim a Igreja ao judaísmo, passou sob silêncio total tanto a Shoá quanto Israel.
Como então não reconhecer que João Paulo II, muito embora sem ir tão longe no "arrependimento" quanto alguns esperavam, deu apesar disso um novo passo sobre o solo ardente. Talvez possamos esperar, ou talvez ele espere secretamente, que os próprios católicos arranquem de seu coração essa erva contaminada, esses mesmos católicos que frequentemente quiseram fundamentar o cristianismo na negação do judaísmo?