Papa segue o caminho dos grandes profetas Do correspondente Gilles Lapouge
Paris, 27 (AE) - Esgotado e curvado, o papa João Paulo II é um homem extremamente teimoso. Visitará o Egito de 24 a 26 de fevereiro, para se dirigir ao mosteiro ortodoxo de Santa Catarina no sopé do Monte Sinai, onde Moisés recebeu a revelação de Deus. Um mês depois, de 20 a 26 de março, João Paulo II percorrerá Israel, Jordânia e Palestina.
A obstinação do papa João Paulo II é compreensível: todos os fundadores de religião, os profetas, os sábios compartilham com ele a mesma mania, a mania do andarilho, a mania da romaria, da peregrinação.
Eles podem sonhar apenas com o céu, mas isso não atrapalha: durante sua vida profana, eles não ficam jamais no mesmo lugar, andam de um lado a outro sobre a "terra", como se seus pés, suas pernas pudessem traçar sobre o solo um desenho, uma espécie de "caligrama" sagrado, o espelho confuso dos caminhos do céu. E isso é verdade, seja qual for a religião: uns podem celebrar o Deus de Israel, outros o Senhor Jesus e outros Alá. Mas, num ponto, todos se parecem; não conseguem ficar quietos no lugar. Não ficam rodando de um lado a outro no próprio quarto. São homens de grande inspiração, homens de "grandes caminhos e de pequenas veredas", como se Deus preferisse habitar os desertos ou os campos a morar nos templos e nas cidades.
Poderíamos indagar a respeito dos estilos, dos modos, dos veículos destes andarilhos sagrados: o príncipe Siddharta Gautama (o futuro "iluminado" ou Buda) é filho de rei. Por isso, quando sai de seu palácio do Nepal, utiliza uma bela carruagem, luxuosa e chamativa, conduzida por um cocheiro. Mas, acha isso muito fútil e manda a carruagem e o cocheiro de volta para continuar sua viagem a cavalo.
Depois, dispensa também o cavalo. Não quer outro veículo senão seus próprios pés, que irão servir-lhe muito bem pois irá caminhar durante cinquenta anos. Depois de sua morte, seus pés tornam-se sagrados".
Inúmeros pés esculpidos de Buda são objeto de peregrinação na ásia budista.
Os pés são também preferidos por Jesus. Não apenas ele lava com prazer os pés de seus discípulos, mas ainda seus próprios pés são o meio de locomoção preferido nas poeirentas estradas da Samaria ou da Galiléia.
Nas grandes circunstâncias, Jesus os substitui pelas patas de um jumentinho, reencontrando assim um animal caro à Bíblia. Lembremos esse estranho profeta Balaão que avança sobre uma jumenta, extremamente simpática porque consegue ver aquilo que escapa ao olhar do próprio profeta. Um dia, ela avisa que os anjos estão ali, barrando o caminho do profeta. Balaão fica indignado e chicoteia a pobre jumenta.
Mas Deus está atento e faz uma séria repreensão a Balaão. "Seja gentil com sua jumenta! Ela tem razão. Há anjos ali. Sem sua jumenta, você teria entrado em confronto com eles. E, além disso, teria de se entender comigo. E seria bem-feito para você!".....
Em contrapartida, o cavalo não é muito bem visto na Bíblia. É um animal magnífico, mas muito guerreiro. Assim se explica que a montaria dos reis de Israel - estes reis tão gloriosos, como Davi - seja o jumento e não o cavalo. Enão é em memória dos reis de Israel que Jesus, em seus útimos dias, se dirige ao Templo de Jerusalém montado num jumentinho?
Quanto a Maomé, seu veículo preferido é o camelo, o que é muito natural nas areias do deserto, entre Meca e Medina, mas ele gosta igualmente do jumento. No final da vida de Maomé, é justamente sua jumenta que vai ter a missão delicada de levá-lo até o céu.
São Paulo, por sua vez, opta pelo navio (o que se explica pelo Mediterrâneo que ele evangelizou e converteu), enquanto os "anjos" preferem, ao que parece, o vôo pelos ares (embora na Bíblia os anjos não tenham asas).
Limitando-nos ao campo judeu-cristão, percebemos que todas estas viagens podem ser compreendidas como ecos , umas das outras, como se elas estabelecessem, no curso dos séculos, uma gigantesca carta geográfica, uma "rede", como se diz na informática, na qual cada itinenário profético responde, refaz, esclarece ou relembra um itinerário precedente. Assim, de viagem em viagem, remontamos ao passado para descobrir a viagem original, a viagem inaugural: a de Abraão (filho de Terak, esposo de Sara, depois de Cetura, pai de Ismael e de Isaac, tio de Ló...) O pequeno Abraão nasceu na Caldéia, de pais idólatras e, ao receber em Ur revelação de um Deus único, ouviu este conselho: "Deixa teu país e vai para o lugar que eu te mostrarei". Abraão é disciplinado. Ajunta suas ovelhas, segue a rota das caravanas e chega à Terra Santa, Canaã, esta "terra prometida" que Deus lhe dá e depois a estende até o deserto de Neguev.
A segunda grande viagem é percebida como o inverso simétrico da primeira: é a de Moisés. Uma primeira vez, Moisés deixa o Egito porque havia matado um egípcio e então foge para o deserto. É ali que ele percebe aquela sarça inefável, que arde sem se consumir jamais, a "sarça ardente", e conhece então o nome impronunciável de Javê.
Volta então ao Egito para buscar seu povo: esta imensa multidão atravessa o Mar Vermellho (mas, naquela época, esse mar era uma série de pântanos) e penetra no deserto do Sinai para receber a Lei do Senhor. Mas Deus faz as coisas se arrastarem, sem dúvida porque os peregrinos cometeram alguns pecados. Os hebreus de Moisés caminham pelo deserto durante quarenta anos e quando, finalmente, podem sair dele, já não são os mesmos: as primeiras gerações já haviam morrido. São os jovens, portanto sem pecado, que têm o direito de entrar em Israel.
Da antiga geração restou o velho Moisés, que Deus conduz até o cume do Monte Nebo, para que possa dali contemplar a Terra Prometida. Moisés a admira, mas não pode penetrar nela porque morre repentinamente.
(Porque ele não entrará na Terra Prometida? Deus deve ter suas razões, mas nós as ignoramos. É mais um enigma).
Portanto, o eco de Abraão em Moisés, o mesmo fenômeno de eco se observa um pouco mais tarde com o profeta Elias (873 a.C.). Elias nasce numa época em que os ídolos haviam voltado. Mas ele detesta os ídolos.
Por isso, massacra 450 profetas do culto pagão de Baal.
Mas, depois percebe que talvez este não seja um bom método, decide voltar às fontes. Galga o Monte Horeb... e ali, Deus ordena-lhe que vá anunciar ao povo o verdadeiro Deus. Uma bela cena: Deus se manifesta num murmúrio, naquilo que a Bíblia chama magnificamente de "uma aragem silenciosa" Trata-se muito claramente de uma experiência mística.
Jesus, o "filho de Deus", é um andarillho tão intrépido quanto seus predecessores. É verdade que seus deslocamentos, suas andanças, não são tão longas: não é entre Babilônia e Canaã que ele caminha, nem entre o Egito e Canaã, mas no interior da minúscula Palestina. Em contrapartida, suas viagens são mais numerosas: seja para ir ao Templo de Jerusalém, seja nos campos da Galiléia, Jesus está sempre a caminho. E arrasta consigo seus discípulos. Diríamos que ele caminha ao léu, ao acaso. É um inspirado. Sabe usufruir da beleza das coisas. De vez em quando, nem se sabe onde ele está:. "Onde estará ele?" perguntam seus discípulos. E o reencontram às margens do lago ou meditando na montanha...
O que intriga nesta breve revisão das viagens dos grandes "iniciados" ou profetas, é ver como elas se entrecruzam, se refazem e se completam. Tudo isso (com exceção de Buda, naturalmente) se realiza num pedaço extremamente pequeno da crosta terrestre, nesta confluência misteriosa de três continentes (Europa, ásia e áfrica) e frequentemente pelos mesmos caminhos: Maomé, alguns séculos depois de Jesus, refaz as mesmas veredas, contempla a mesma Jerusalém, caminha às margens do mesmo Rio Jordão.
Desta forma, desenha-se no curso dos séculos uma geografia "sagrada", como se os pés dos profetas, dos Messias, dos deuses ou fundadores, que deixassem após sua passagem um inextricável labirinto de cicatrizes e de sinais divinos. Um amontoado de traços e de destinos que formam apenas a metáfora de um outro amontoado de todas estas "buscas espirituais" e cada uma dessas buscas só revela seu sentido quando confrontada com as buscas que a anunciaram e precederam. A viagem de Jesus sobre a Terra não pode ser compreendida se não for decifrada ao clarão da Bíblia inteira: Abraão, Moisés, Davi, Elias, Jesus não são mais do que as palavras e as pontuaçeõs de um livro indizível, escrito por Deus, os pedaços entrelaçados de um mesmo bordado.
É nesta perspectiva que é preciso entender também, depois dos primeiros séculos, as grandes peregrinações da Cristandade (mas também, em outras esferas religiosas, as peregrinações islâmicas
budistas ou outras).
Na esfera cristã, estas peregrinações começaram muito antes do que se pensa. Desde o terceiro século, conhecemos um primeiro peregrino, (ou melhor uma peregrina, uma mulher chamada "Etéria") que vai para a Terra Prometida com a intenção, declarada nas suas Memórias, de refazer com seus passos os passos de Jesus (daí o fenômeno de eco, do qual falamos mais acima, claramente reivindicado). No quarto século, outras viagens, como a do "peregrino de Bordeus", ávido também de refazer o itinerário de Jesus. E, mais tarde, as grandes peregrinações, entre as quais a mais prodigiosa é a de Compostela, onde está a tumba de São Tiago, na Espanha.
Desta forma, podemos compreender melhor, neste nosso século de aviões supersônicos e de computadores, a fascinação que arrasta os homens a caminhar sobre a Terra, no pó da terra. Como se cada um de nossos deslocamentos, cada uma de nossas andanças, não fosse senão a prefiguração de uma outra marcha, não em nossos campos e em nossos bosques, mas no outro lado, o da morte
em paisagens incognoscíveis.





