Papa inicia peregrinação com apelo à paz
Amã, 20 (AE-AP) - O papa João Paulo II iniciou nesta segunda-feira (20) sua peregrinação pela Terra Santa fazendo um pedido por paz e justiça aos muçulmanos, judeus e cristãos.
O pontífice insiste em que se trata de uma viagem espiritual, sem objetivos políticos, mas espera que ela contribua para a convivência pacífica entre os seguidores das três religiões monoteístas na região, abalada por atentados e guerras.
O papa tinha dificuldades para falar e sua mão esquerda tremia por causa do mal de Parkinson, mas ele parecia animado ao iniciar a primeira viagem de um pontífice à Terra Santa em 36 anos, quando se comemora o jubileu cristão.
Como João Paulo II já não consegue ajoelhar-se, fez um sinal-da-cruz sobre um recipiente contendo terra jordaniana, oferecida por um menino muçulmano.
"Todos os jordanianos - muçulmanos e cristãos - deveriam considerar-se um só povo, uma família", disse o papa. "Nesta região do mundo, há questões graves e urgentes para serem resolvidas sobre a justiça dos direitos dos povos e das nações"
acrescentou, ainda no aeroporto de Amã, observando que a paz deve ser perseguida não importando o quanto isso seja difícil ou demorado.
Ao desembarcar, o pontífice foi recebido pelo rei Abdala II, da Jordânia. "Sua visita traz a esperança de um futuro melhor para aqueles que só conheceram as misérias do passado", disse o rei. "Esperanças para os palestinos que clamam por justiça e estabilidade, uma promessa para os israelenses de segurança e aceitação, o consolo de um futuro melhor para os libaneses e a esperança para os sírios de que o triste episódio da guerra chegue ao fim."
Pombas - Abdala II e o papa trocaram presentes: o soberano jordaniano entregou a João Paulo II um exemplar antigo do Corão e recebeu do Vaticano a pintura de um barco no Rio Jordão. Soldados dispararam salvas e várias pombas brancas foram soltas como símbolo de paz. No trajeto do papamóvel para o bíblico Monte Nebo, primeira visita do seu roteiro, foi saudado por milhares de pessoas, embora os cristãos jordanianos sejam estimados em apenas 50 mil.
O pontífice passa a noite em Amã e amanhã cumprirá a segunda parte do seu programa na Jordânia, que inclui uma missa no Estádio de Amã, para cerca de 40 mil fiéis.
À tarde, João Paulo II seguirá para Israel, onde há vários dias judeus ortodoxos protestam contra a visita. Eles colocaram suásticas no heliporto de Jerusalém, local da chegada do pontífice à Cidade Santa das três religiões. Rabinos e muitos judeus em todo o mundo esperam que o papa polonês finalmente se pronuncie com clareza sobre o "silêncio do Vaticano" em relação ao Holocausto. Mas, para a Santa Sé, o recente mea-culpa da Igreja pela perseguição aos judeus é suficiente e não está prevista nova manifestação nesse sentido durante a passagem por Israel.
Ortodoxos também querem que o papa retire a cruz quando visitar o Muro das Lamentações, local sagrado para os judeus, na sua visita a Jerusalém. Há quem discorde. Por exemplo, Lea Rabin
viúva do primeiro-ministro Yitzhak Rabin, assassinado a tiros por um fanático judeu da extrema direita em 1995. Para ela, não há necessidade de novos gestos. "Esse papa tem demonstrado muito mais simpatia com Israel que todos os seus predecessores."
A visita é acompanhada com interesse por judeus em todo o mundo. Em São Paulo, o rabino Henry Sobel, presidente do rabinato da Congregação Israelita Paulista (CIP), considera a viagem um marco histórico. "Ela representa, a meu ver, o clímax nas relações entre o Vaticano e o Estado judeu", disse o rabino. "Essas relações são complexas, pois se desenvolvem em dois níveis: entre duas religiões e entre dois Estados."
Cidade unificada - Sobel lembrou que o papa Paulo VI esteve em 1964 em Jerusalém. "Na época, a cidade ainda estava dividida e o papa não se encontrou com nenhum líder israelense porque o Vaticano ainda não tinha reconhecido Israel", afirmou. "Agora, a situação é diferente e o ponto alto da viagem será a visita ao Yad Vashem, o memorial do Holocausto."
"Sempre achei que para alcançar a paz não podemos depender exclusivamente dos líderes políticos", disse. "A igreja, a mesquita e a sinagoga têm de abrir o caminho para a paz e o papa está dando um passo nessa direção."
Ensaio - Israel realizou hoje à noite um ensaio geral para a recepção ao papa, no Aeroporto Ben Gurion em Tel-Aviv, onde desembarcará às 17h30 locais, de um avião da Jordan Airlines, seguindo o protocolo do Vaticano, que exige que o pontífice viaje sempre por uma companhia do país que visita. O governo israelense preparou um forte esquema de segurança, excepcional mesmo para os conhecidos padrões do país.
Esta é a 91ª viagem do papa ao exterior e vem sendo considerada o momento culminante dos seus 21 anos de pontificado e a "mais difícil missão" de João Paulo II, por causa da complexidade política do Oriente Médio.





