Papa elogia reforma agrária de FHC
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segunda-feira, 20 de abril de 1998
Agência Estado 
José Paulo Lacerda/Agência Estado
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Mal assessoradoO núncio apostólico romano, Alfio Rapisarde (d), e o ministro da Política Fundiária, Raul Jungmann, ontem no Palácio do Planalto, pouco antes do encontro com o presidente Fernando Henrique Cardoso. A carta do Papa elogiando o governo causou estranheza ao MST, que acusa Jungmann de ter mentido à Igreja sobre a questão agrária no PaísO papa João Paulo II elogiou o empenho do governo brasileiro na promoção da reforma agrária em carta entregue ontem ao presidente Fernando Henrique Cardoso pelo núncio apostólico Alfio Rapisarde. O ministro de Política Fundiária, Raul Jungmann, participou da audiência e comemorou: Há um reconhecimento do empenho e do engajamento do presidente Fernando Henrique, e do governo como um todo, de fazer avançar a reforma agrária.
Para o bispo de Santa Maria, dom Ivo Lorscheiter, a carta é um documento protocolar. Na avaliação do coordenador do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), Gilmar Mauro, o Papa só pode estar mal assessorado, pois as informações não seriam corretas.
Em março, quando esteve no Vaticano, Jungmann entregou ao Papa uma mensagem do presidente Fernando Henrique e um relatório sobre o trabalho de assentamento de sem-terra desenvolvido pelo governo. Foi uma resposta ao documento do Pontifício Conselho de Justiça e Paz do Vaticano que cobrou, de todos os países do mundo, a justa distribuição de terra. O Brasil foi o primeiro país a responder ao apelo do Santíssimo Padre, disse Jungmann. Isso demonstra a importância que o Brasil dá, em primeiro lugar, ao tema da reforma agrária e, em segundo lugar, ao apelo do Papa.
A carta a Fernando Henrique é uma resposta ao relatório brasileiro. O Papa diz que a mensagem levada pelo ministro Jungmann despertou particular interesse. Desejo agradecer-lhe, senhor presidente, pelo empenho que vem prestando à causa da reforma agrária no País e pelos esforços por uma sempre melhor aplicação dos princípios da Doutrina Social da Igreja, afirmou o sumo pontífice. João Paulo II concluiu a carta assegurando ao presidente sua proximidade espiritual com os brasileiros, que aspiram por um futuro de paz e prosperidade, ao amparo de uma ordem social mais justa e humana.
O ministro Jungmann não quis fazer comentários sobre os efeitos que a carta do Papa poderá provocar nos setores da Igreja Católica brasileira que criticam a lentidão da reforma agrária do governo. A Igreja sempre teve um papel decisivo de manter a reforma agrária como bandeira, se colocando ao lado dos excluídos, argumentou. As críticas, mesmo quando agudas, têm como preocupação melhorar o desempenho do governo, afirmou, acrescentando que há coincidência nos propósitos do governo e da Igreja.
Para o coordenador do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), Gilmar Mauro, o Papa só pode estar mal assessorado. Se foi a Igreja que informou o Papa, então a Igreja mentiu, suspeitou, afirmando ainda que se a fonte foi o ministro Jungmann, não seria surpreendente porque ele costuma mentir com frequência para os sem-terra.
Não é verdade que o governo Fernando Henrique esteja se empenhando em fazer reforma agrária no País, insistiu. Segundo ele, o que há no Brasil é uma política de assentamento, segundo a qual o governo desapropria e assenta famílias vez por outra. Falta, na opinião de Mauro, uma política de reforma agrária, que poderia, por exemplo, determinar a desapropriação de todas áreas improdutivas acima de mil hectares.
Ele lembra que o próprio Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra) informa existirem 280 milhões de hectares de terras improdutivas. Há muito esforço desse governo em fazer marketing e propaganda, acusou Gilmar Mauro, que reconhece, apesar das críticas, que este governo é o que mais fez pela reforma agrária no País. Mas é porque os outros nada fizeram, explicou.
Para o bispo de Santa Maria, dom Ivo Lorscheiter, a carta de João Paulo II a Fernando Henrique é um documento protocolar, em resposta ao relatório entregue pelo ministro Jungmann quando esteve em Roma. Segundo ele, o pensamento de Roma sobre a reforma agrária está no documento divulgado em novembro pelo Papa. O documento cobra dos governos uma melhor distribuição de terras.


