Papa começa amanhã peregrinação à Terra Santa19/Mar, 15:19 Jerusalém, 19 (AE) - Ao descer sozinho de um helicóptero e colocar os pés nas areias do Monte Nebo, na Jordânia, no exato ponto onde a Bíblia diz que Moisés avistou a Terra Prometida, o papa João Paulo II começa amanhã (20) a realizar um dos sonhos de sua vida. Desse ponto, também conhecido como Pisgah, ele poderá contemplar o rio Jordão e sua margem ocidental, o Mar Morto e, se o dia for claro, até mesmo Belém e Jerusalém a distância. Tudo isso sem perder de vista os outros objetivos que traçou para essa visita. Entre eles, o de estreitar os laços entre a Igreja Católica e as demais igrejas cristãs que marcam através de monumentos sua presença na Terra Santa, e o de incentivar a pacificação entre judeus e muçulmanos, tradicionais habitantes da região. Ainda na Jordânia, o primeiro país visitado e cujo papel de mediador no conflito entre judeus e palestinos não deve ter sido desprezado pela diplomacia do Vaticano, consta do roteiro papal a visita a Wadi Al-Kharrar. Neste local, na margem oriental do rio Jordão, diz a tradição (embora muitos contestem) que Jesus foi batizado por João Batista. Em seguida, deixando para trás a Jordânia, o pontífice passa à margem ocidental e nas proximidades de Jericó, numa zona ainda ocupada militarmente por Israel, o Papa estará em Qasr El Yahud, exato ponto por onde os judeus adentraram na Terra Prometida, ao fim de 40 anos vagando pelo deserto após a fuga do Egito. João Paulo II chega a Israel na terça-feira, em meio às celebrações do carnaval judaico, o Purim, quando gente fantasiada sai às ruas e há desfiles, inclusive em Tel Aviv. Entre as alegorias do desfile deste ano, estará uma imagem do ilustre visitante de 4 metros de altura. A folia não deverá afastar o Pontífice de sua peregrinação pelos lugares mais santos do Cristianismo. Alguns destes lugares estão sob a proteção de Israel, como a Capela do Cenáculo (local da Última Ceia), os Jardins de Getsêmani, a Basílica da Anunciação, em Nazaré, a Via Dolorosa (caminho do Calvário) e a região do Mar da Galiléia, com suas margens celebrizadas por milagres como o da multiplicação do pães. Outros estão sob jurisdição palestina, como a Igreja da Natividade, em Belém, em cujas proximidades João Paulo II celebrará missa para 20 mil peregrinos. A maioria dos palestinos prepara-se para dar a Sua Santidade uma acolhida compatível com a simpatia neles despertada pela política do Vaticano, que defende a participação formal da Autoridade Palestina (AP) na decisão sobre a divisão de Jerusalém. Nesse sentido, foi selado no mês passado um acordo entre o Vaticano e o governo palestino que condena qualquer decisão "unilateral" sobre a cidade santa, e considera as ações israelenses em Jerusalém Oriental como "moral e ilegalmente inaceitáveis". Por seu lado, a maioria dos israelenses (60% segundo pesquisa do Instituto Gallup), apesar de seus conflitos com a população árabe, tem uma expectativa favorável em relação à visita papal, a primeira de um pontífice ao país desde o reconhecimento do Estado de Israel pelo Vaticano em 1994. A avaliação positiva de João Paulo II , segundo os analistas, foi reforçada pelo seu recente pedido de perdão aos judeus, que no entanto aguardam uma nova condenação papal ao anti-semitismo e uma declaração mais clara sobre o genocídio de que seu povo foi vítima durante a Segunda Guerra. Aliás, a mudança de atitude da Igreja Católica em relação aos judeus, que começou em 1965, quando o Concílio Vaticano condenou a estigmatização do povo judeu como coletivamente responsável pela crucificação de Jesus, culminou em 1979. Foi quando o papa atual reconheceu que o Judaísmo deu origem e é o "irmão mais velho" do Cristianismo. Por razões como esta é que o governo israelense, embora dizendo esperar que João Paulo II evite pronunciar-se sobre o estatuto de Jerusalém, dispôs-se a investir na visita: está co-financiando, ao lado de entidades privadas, a reforma e restauração dos lugares sagrados incluídos no roteiro da peregrinação papal, além de reforçar a logística e a segurança para o evento, preparando o país para receber os milhares de peregrinos e a leva de jornalistas que a presença do pontífice sem dúvida atrairá. Reforçando o clima positivo que antecede a visita papal, as autoridades israelenses decidiram libertar em três etapas, nos próximos dias, 55 prisioneiros palestinos, num "gesto de boa vontade". A decisão homenageia uma das principais comemorações muçulmanas, a Festa do Sacrifício, que se encerra hoje dia marcado para libertação do primeiro grupo de presos. Embora a decisão de Israel não esteja ligada às negociações de paz com o governo palestino de Yassser Arafat, ela coincide com o reinício do diálogo, marcado para amanhã.

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