Papa aprova beatificação de brasileiro
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segunda-feira, 06 de abril de 1998
Agência Folha 
O papa João Paulo II aprovou ontem a beatificação do franciscano paulista Antônio de SantAnna Galvão (1739-1822). Ele é o primeiro brasileiro nato a ser declarado beato pelo Vaticano. A beatificação é uma etapa necessária à possível canonização, quando então a personalidade católica é reconhecida como santa. Não há nenhum santo brasileiro.
Dois outros personagens do catolicismo brasileiro já foram beatificados: o jesuíta José de Anchieta, que nasceu nas Ilhas Canárias (território de Portugal), e madre Paulina, nascida na Itália, fundadora, em 1890, da congregação da Imaculada Conceição no Brasil.
Antônio Galvão de França - ou Antônio de SantAnna Galvão, nome pelo qual passou a ser chamado após sua ordenação - é o fundador, em 1774, do Recolhimento de Nossa Senhora da Conceição da Divina Providência, atual Mosteiro da Luz, centro de São Paulo, onde ainda hoje 14 freiras vivem em regime de clausura.
O milagre que levou a sua beatificação ocorreu há pouco menos de oito anos, quando a menina Daniela Cristina da Silva, então com quatro anos, foi dada como desenganada na Unidade de Terapia Intensiva (UTI) do Hospital Emílio Ribas, com hepatite aguda.
O pediatra que acompanhou seu caso, em depoimento ao tribunal eclesiástico, atestou não haver outra causa, a não ser a divina, para justificar sua cura. Daniela, hoje com 12 anos, é ginasiana da 6ª série e mora no bairro paulistano de Vila Brasilândia (zona noroeste). Ela ingeriu, durante o período crítico da moléstia, pílulas supostamente milagrosas, feitas com papelotes nos quais, segundo receita herdada do frade, é inscrita uma frase de devoção à Virgem Maria.
Frei Galvão nasceu em Guaratinguetá (177 quilômetros a noroeste de São Paulo), onde há hoje um museu com seus pertences. Seu pai, também chamado Antônio Galvão de França, era comerciante português e chegou a ser capitão-mor de Guaratinguetá e Pindamonhangaba. Sua mãe, Isabel Leite de Barros, era natural de Guaratinguetá. Frei Galvão teve dez irmãos. Aos 13 anos, foi enviado a um seminário jesuíta da Bahia. Não se ordenou por aquela ordem em razão da precariedade com que ela sobrevivia em Portugal e colônias, por seus atritos com o marquês de Pombal, o homem forte do poder temporal em Lisboa.
Matricula-se num seminário franciscano em Taubaté (SP). É ordenado em 1762. Forma-se em teologia seis anos depois, tornando-se pregador, confessor dos leigos e porteiro do convento de São Francisco, em São Paulo. Passa a dar assistência espiritual a um grupo de religiosas que vivia em recolhimento sob a liderança de irmã Helena Maria do Espírito Santo. Trata-se do núcleo inicial do atual convento da Luz. Frei Galvão orientou durante 14 anos a construção de uma sede definitiva para o convento e, nos 14 anos seguintes, a edificação de sua capela, edifícios hoje tombados como patrimônio histórico, na Avenida Tiradentes (centro).
Admirado por suas virtudes religiosas, enfrentou por duas vezes o poder temporal representado pelo capitão-general da Província. Numa delas - ao se opor à condenação à morte de um soldado - foi desterrado para o Rio de Janeiro, de onde voltou por pressão do bispo e de das paróquias da cidade. Ele morreu às 10 horas do dia 23 de fevereiro de 1822 e está enterrado na capela que ajudou a edificar.


