Rio de Janeiro
Com a bênção dada ontem aos presos de uma das penitenciárias maiores e mais antigas do Rio de Janeiro, a Frei Caneca, o papa João Paulo 2º apoiou a luta da Igreja Católica brasileira contra as condições desumanas dos presídios superpovoados. O papa lhes enviou mensagem de amor e salvação, sem esquecer as realidades cotidianas do mundo em que vivem, e apelou aos funcionários das prisões a ‘‘respeitar a dignidade humana’’.
‘‘Cristo e os apóstolos conheceram a realidade das prisões. São Paulo esteve encarcerado várias vezes... E quando Cristo morreu na cruz expressou um supremo testemunho de amor... Foi cruxficado entre dois condenados dizendo ao ladrão arrependido: na verdade, digo, hoje estarás comigo no Paraíso’’, expressou o Pontífice em sua carta aos prisioneiros.
‘‘O projeto de salvação é para todos - continuou. Ninguém tem que se sentir excluído... No segredo do silêncio podeis participar do Encontro (Mundial das Famílias) ... Permiti-me manifestar meu afeto pela Pastoral das Prisões do Rio de Janeiro, com o desejo de que este serviço da Arquidiocese continue dando calor humano e orientação religiosa aos que passam por momentos difíceis’’.
As bênçãos do papa tiveram um significado amplo, depois de ter formulado ao desembarcar uma surpreendente e taxativa denúncia social, referindo-se especialmente aos ‘‘desequilíbrios sociais, e à injusto distribuição da riqueza’’. Tampouco esqueceu os meninos de rua.
Para a Igreja Católica brasileira há também nas prisões muitas vítimas dessa sociedade injusta à que fez alusão João Paulo 2º. Recentemente, um juiz do Distrito Federal (Brasília), Gerge Lopes Leite, não vacilou em decretar a libertação de 158 presos, alguns condenados por homicídio, como forma de lutar contra a superpopulação das prisões.
Com o título bíblico ‘‘Cristo liberta de todas as prisões’’, os bispos brasileiros não estão no caminho equivocado: 95% dos presos brasileiros são ‘‘pobres ou muito pobres’’ e 85% deles não têm meios para contratar um advogado. ‘‘Salvo raras exceções, as prisões brasileiras submetem os prisioneiros a penas muito maiores que a condenação prevista por lei’’, acusa a Pastoral.
Atualmente - acrescenta - há 129.169 presos no Brasil, 124.403 homens e 4.766 mulheres... Em geral 2,15 deles ficam confinados num espaço que dá apenas para um... a tuberculose afeta 80% dos homens e 90% das mulheres... No Brasil há 425.000 soropositivos, um para cada 364 habitantes. Nas prisões, eles são 20.000, um em cada seis presos. Em relação à AIDS, são registrados no Brasil 29.000 casos (1 em cada 5.344 habitantes). Nas prisões há 2.330 (um caso em cada 52 presos).
Ao citar um poema sobre as prisões escrito por Bertolt Brecht, a Igreja denunciou que nas celas há ‘‘uma maioria escandalosa de pobres’’ e ‘‘os pobres são os eternos suspeitos, são perdedores’’.

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