São Paulo, 10 (AE) - Considerado um dos últimos bastiões do varejo brasileiro, o empresário Abílio Diniz, presidente do Pão de Açúcar, finalmente aceitou vender até 35,5% de participação do capital do grupo com direito a voto. Dos dez principais varejistas nacionais, o único que ainda não tem sócio estrangeiro é o empresário carioca Arthur Sendas. Segundo Diniz, no início dos anos 90, quando iniciou o processo de reestruturação do grupo, já havia traçado como meta ter um sócio estrangeiro, que trouxesse para empresa tecnologia e dinheiro. Foi isso que atraiu o empresário para os franceses do Grupo Casino, que pagará US$ 2 bilhões pela compra minoritária do principal varejista nacional. "Continuamos uma empresa nacional
agora também com capital estrangeiro", enfatizou hoje, em São Paulo.
Diniz foi buscar na propaganda da Semp Toshiba uma frase adaptada para entrada dos novos sócios, apesar do orgulho de ser brasileiro, slogan que vem sendo veiculado em suas campanhas publicitárias: "Nossos franceses são melhores que os franceses dos outros", brincou. Uma provocação ao líder Carrefour? Hoje, não. Mas em cinco anos, quando todas as metas estiverem sendo alcançadas, o Carrefour poderá tomar um susto com os números do rival. "Vamos estar com faturamento acima dos R$ 14 bilhões." A seguir, os principais trechos da entrevista concedida hoje.
AGÊNCIA ESTADO - Por que um dos últimos bastiões do varejo brasileiro resolveu associar-se ao grupo francês Casino?
Abílio Diniz - Somos uma das únicas empresas nacionais do setor e continuamos sendo uma companhia nacional. O fato de admitirmos uma parceiro estrangeiro pouco muda. Se observarmos melhor, dá para perceber que 25% do nosso capital em ações preferenciais está no mercado, praticamente todo fora, nos Estados Unidos. Agora, admitimos um parceiro estratégico no capital ordinário, que vai nos trazer, sem dúvida, um aumento de tecnologia, naquilo que eles são bons em coisas importantes, como marcas próprias. O Casino é muito bom nas chamadas compras globais, feitas na ásia, na parte logística, em operações de centro de distribuição. Tudo isso eles vão repartir conosco, assim como vamos repartir com eles o que nós temos. Fui convidado para ser membro do comitê-diretor deles e acho que vou aceitar. A entrada do Casino no capital do Pão de Açúcar nada muda. Somos uma empresa brasileira, controlada por brasileiros e isso que é importante, continuar usando o slogan "orgulho de ser brasileiro".
AE - Havia necessidade de ter sócios participando do conselho de administração do grupo, já que era mais fácil buscar dinheiro nas bolsas estrangeiras?
Diniz - Olha, necessidade não existe. Vantagem é o que existe. Hoje temos no conselho de administração, composto por 12 pessoas, representantes dos acionistas minoritários (fundos). Essa abertura no conselho permite ter transparência e também abertura para receber críticas, certamente há uma evolução. Ter dois representantes do Casino no conselho do Pão de Açúcar será positivo.
AE - Depois dessas mudanças, qual será a participação acionária da família Diniz no Pão de Açúcar?
Diniz - Nesta primeira fase, vamos reduzir nossa participação de 100% para 76% de ações com direito a voto e de 74% para 48% no capital total. Daqui a cinco anos, quando for integralizada a compra dos 35,5% do Casino, teremos 60% do capital votante e 40% do capital total. Decidimos ter uma pequena participação no capital l de uma grande empresa, ficando com o controle nas mãos.
AE - O contrato entre Casino e Pão de Açúcar permite a expansão dos parceiros no Mercosul e Península Ibérica. Mas o senhor prefere ficar concentrado no Brasil. Por quê?
Diniz - Sou mais Brasil. Prefiro fazer mais investimentos no Brasil do que na Península Ibérica e Mercosul. Já tivemos negócios na Península Ibérica e depois decidimos sair. Ainda temos uma participação minoritária, em sociedade com o grupo francês Auchan, que vamos nos desfazer, pois não faria sentido sermos sócios de duas companhias francesas concorrentes. Acho que sendo brasileiro e com as oportunidades que o Brasil oferece, temos de fazer aqui os investimentos.
AE - US$ 1 bilhão que entrarão na primeira fase, com o grupo Casino adquirindo 23,98% do capital votante, será utilizado para abater dívidas do grupo ou para investimentos?
Diniz - Primeiro, precisamos deixar claro que vendemos participação para que o negócio continue crescendo, e não para pagamento de dívidas. Nosso último balanço é claro, muito claro. Do endividamento total de R$ 1,509 bilhão, temos de descontar R$ 220 milhões do caixa; outros R$ 344 milhões são de debêntures conversíveis que podem ser tranquilamente trocadas por ações; há também em contas a receber R$ 361 milhões em carnês e outras contas. Portanto, para quem sabe ler balanço, é possível ver que nosso endividamento de longo prazo é de R$ 582 milhões. US$ 1 bilhão vão ficar guardados em caixa e vamos aguardar oportunidades para crescimento. Esse dinheiro será totalmente para investimentos. O acionista não se está beneficiando em nada com essa transação. Estamos fazendo aumento de capital e quem sai ganhando com isso é a companhia.
AE - Com o dinheiro no caixa, o senhor não acha que, quando o grupo for comprar algum concorrente, o preço será superavaliado?
Diniz - Não acredito nisso porque nós temos na trajetória de negociações tudo muito bem definido. Nós sabemos o que queremos e estamos dispostos a pagar um preço justo. Não pagamos além do preço que consideramos justo e nos permite ter retorno. As pessoas que negociam com o Pão de Açúcar conhecem a linha de transação do grupo.
AE - Onde o grupo pretende estar nos próximos cinco anos?
Diniz - Se nós soubermos manter a eficiência que temos tido até agora, se aumentarmos ainda mais a produtividade, acredito que poderemos vir a dobrar a empresa nos próximos cinco anos.
AE - Isso significa faturar R$ 14 bilhões?
Diniz - Mais. Se anualizarmos a venda de novembro deste ano, quando já estaremos com todas as lojas programadas para 99 em funcionamento, estaremos muito próximos dos R$ 9 bilhões anualizados. Ou seja, é a multiplicação do mês de novembro por 12 meses e meio - um pouco mais por causa do mês de dezembro -, fizemos estudos com o Casino de programação de planos e orçamento, acreditamos que as vendas poderão ser dobradas até o término do quinto ano. Isso vai depender do nosso trabalho e do esforço. Vai depender também muito da conjutura econômica.
AE - Não foi muita coincidência o Pão de Açúcar ter enviado comunicado para a Comissão de Valores Mobiliários dizendo que estava negociando a venda de participação para um grupo estrangeiro e, no dia seguinte, ter anunciado os prejuízos do semestre?
Diniz - Não. Uma coisa não tem nada a ver com a outra. O negócio do Casino começou há um ano e está sendo concluído agora. Mas poderia ter sido fechado há um mês, dois meses ou mais para frente. O anúncio das nossas contas do segundo trimestre tínhamos de fazer dentro do prazo legal. Esse fato de termos publicado um prejuízo do semestre não nos preocupa porque nós lançamos no balanço R$ 140 milhões de desvalorização cambial e fizemos para o ano inteiro. Daqui para frente será, se não houver novas desvalorizações acentuadas, lançaremos apenas o lucro que tivermos no segundo semestre.

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