São Paulo, 13 (AE) - O "Projeto Emergencial de Perdas", implantado em julho último pelo Grupo Pão de Açúcar, vai render à empresa uma economia de mais de R$ 40 milhões apenas neste ano. As perdas, que respondem hoje por mais 2% da receita bruta - estimada muito acima de R$ 7 bilhões -, estão em curva descendente. A meta é encerrar o ano com taxa ao redor 1,35% e estabilizar em 1,1%.
As maiores quebras, que ocorrem historicamente no último trimestre do ano, já começaram a ser sanadas. Entre os meses de outubro a dezembro, o grupo obteve recuo de 0,3% nos prejuízos comparados ao mesmo período anterior. Mão-de-obra desqualificada
roubos interno e externo, má condições de armazenagem são fatores apontados como responsáveis pelas quebras.
Cerca de 30 das 349 lojas, que nessa época do ano costumam ter alto índice de perdas, respondendo por 40% dos prejuízos totais, já apresentaram queda no último trimestre. "Foi uma bela surpresa. Em pouco tempo de trabalho os resultados já foram positivos e a queda foi de 0,3% nas perdas", comemora ¶ngelo Rúbio Filho, diretor de prevenção de perdas.
Nos últimos três meses de cada ano, explica, as perdas aumentam até 40% sobre os demais, em função do maior volume de negócios, contratação de mão-de-obra não especializada, maior número de roubo interno e externo.
O "Projeto Emergencial de Perdas" engaja hoje 60% dos pontos de venda do Grupo Pão de Açúcar. "Até meados de 2000 todo o grupo estará integrado", disse à Agência Estado Rúbio Filho. As maiores perdas estão por conta dos perecíveis como frutas, legumes e laticínios.
"Estes são os setores com índices que ultrapassam a casa dos 2%", afirma. Para evitar tamanho estrago, o grupo está fazendo um trabalho corpo a corpo junto aos cerca de 7 mil fornecedores e funcionários. Vários fornecedores "já foram suspensos temporariamente por burlarem as entregas". O segmento de carnes, por exemplo, que realiza entregas diretas, vinha cometendo falhas graves como fazer passar por carne de primeira as de segunda.
Outra medida, explica, está sendo conscientizar a indústria da necessidade de acondicionar os produtos mais visados para roubo em embalagens mais resistentes. E em alguns casos, como o de bebidas de alto valor agregado, o grupo optou por mantê-las em gôndolas fechadas.
Pioneiro nesta área, o grupo contratou a empresa ICTS e a Arthur Andersen para implantarem o novo sistema na empresa. "É um projeto de médio a longo prazo", afirma Rúbio Filho.
Nos Estados Unidos, os empresários varejistas já cuidam desta questão há mais de 20 anos. Para se ter uma idéia do tamanho da disparidade entre os dois países, enquanto aqui o prejuízo total de 1998 está estimado em R$ 4,5 bilhões, última projeção, equivalentes a 3% dos U$ 143 bilhões faturados, o varejo americano vendeu US$ 1,450 trilhão, com taxas de perdas quase pela metade, 1,72%, índice que mantém nos últimos oito anos, ou seja, US$ 27 bilhões.
O combate às perdas brasileiras exigiria, num primeiro passo
investimentos da ordem de R$ 22 milhões, o equivalente a 0,5% da receita. Os americanos desembolsaram 0,49% há três anos e 0 59% em 1998 do total do faturamento.
O índice de prejuízo do segmento de perecíveis, por exemplo, corresponde a 10% da venda bruta enquanto o varejo global contabiliza perda anual equivalente a 3% do faturamento, com o setor supermercadista na liderança.
Apenas as 300 maiores redes de supermercados brasileiras obtiveram, em 1998, uma receita bruta de US$ 38,9 bilhões, arcando com US$ 1,2 bilhão de prejuízos. Se a taxa fosse semelhante à americana as perdas teriam caído quase pela metade, US$ 762 milhões.
Alarmados com os números e ansiosos na tentativa de sanar o problema o Grupo Pão de Açúcar e Lojas Americanas, entre outras, formaram recentemente o Comitê Diretor de Prevenção de Perdas do Programa de Varejo da USP - Provar. "Pesquisa feita em abril passado junto a 40 entrevistados de diversos segmentos varejistas, mostra que 48% apontaram perdas próximos de 3% da venda bruta em 1998", afirma Cecília Leote, coordenadora do seminário que começou ontem e termina hoje na Faculdade de Economia e Administração da USP, do Provar.
Cecília ressalta que os furtos dos próprios funcionários, associado aos externos, foram as principais causas deste elevado índice. Mão-de-obra desqualificada, erros operacionais, produtos sem validade, má condições de armazenagem também foram fatores citados por ela como vilões do prejuízo.
Participaram especialistas do Brasil, Inglaterra, Colômbia, México e Estados Unidos. Paralelamente haverá exposição de lançamentos da indústria de equipamentos e serviços dos setores de prevenção. A pesquisa será apresentada em setembro, durante a feira nacional da Associação Brasileira de Supermercados, Abras 2000, no Rio.

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