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Pandemia derruba taxa de crescimento vegetativo

Aumento do número de mortos e queda nos nascimentos podem ser efeitos do avanço da Covid-19

Vitor Struck - Grupo Folha
Vitor Struck - Grupo Folha

A pandemia da Covid-19 fez aumentar uma preocupação que já começava a ganhar corpo entre quem se dedica a mapear o desenvolvimento econômico e social de determinada localidade levando em conta a sua dinâmica demográfica. Com o espalhamento do vírus, o "encolhimento" da população deixou de ser tratado como uma tendência para se materializar em números. Especialmente quando analisados os do período mais duro: os primeiros meses de 2021.

 

Pandemia derruba taxa de crescimento vegetativo
Gustavo Carneiro/4-6-2021
 


No Paraná e em Londrina nunca se morreu tanto e nunca se nasceu tão pouco como durante o período da pandemia de coronavírus. É o que aponta levantamento feito pela Arpen-Brasil (Associação Nacional dos Registradores de Pessoas Naturais) com base nos números absolutos de registros de nascidos vivos e mortos no estado.


Conforme a entidade, os primeiros seis meses deste ano registraram total de óbitos 51% maior do que a média para o período desde 2003, quando do início da série histórica. O total de óbitos, 3.279, foi 66,7% maior do que o registrado no primeiro semestre de 2020, e 70,6% maior do que o atingido um ano antes.


A Secretaria de Saúde de Londrina aponta que 1.840 pessoas morreram em decorrência da doença na cidade desde o início da pandemia, há 19 meses, sendo os primeiros cinco meses de 2021 os mais letais também no município.  


O "tombo" na taxa de crescimento vegetativo foi encontrado após análise do total de nascidos vivos, índice que apresentou queda de 12,9% em relação à média de nascimentos na cidade para o período. De acordo com a entidade, Londrina registrou 3.505 nascimentos nos primeiros seis meses deste ano, o que representa queda de 5,8% em comparação com o mesmo período do ano passado e 19,2% a menos do que no ano anterior.  


Desta forma, a diferença média entre nascimentos e óbitos, que era de 1.850 nascimentos a mais, caiu para 226 no primeiro semestre deste ano. A queda representa decréscimo de 87,8% na comparação com a média histórica. 


Os dados são atualizados em tempo real por mais de 519 cartórios de Registro Civil do Paraná. “O Portal da Transparência do Registro Civil possibilita que a sociedade se dê conta da dimensão dos fatos ocorridos durante o passar dos anos, ainda mais nesta situação peculiar da pandemia. É de extrema importância para que medidas sejam tomadas pelo Poder Público diante da nova realidade populacional para os próximos anos ", comentou a presidente do Irpen/PR (Instituto do Registro Civil das Pessoas Naturais do Estado do Paraná), Elizabete Regina Vedovatto.


A entidade também concluiu que a taxa média de nascimentos para cada óbito registrada no Paraná entre 2003 e 2020 apresentou queda de 2,45 para 1,24 no período analisado. A comparação também apontou queda de 10,52% no total de nascimentos na comparação com a média histórica, ao mesmo tempo em que o número de óbitos no estado cresceu 77,28%. Deste modo, foi encontrada uma diferença de 24.088 nascimentos a mais do que óbitos, índice bem menor do que os 47.418 no primeiro semestre entre 2003 e 2020. 


ESTAMOS ENCOLHENDO?


Se a Covid-19 foi apontada como a causa da morte de 10.222 dos 68.297 paranaenses que perderam a vida entre março e dezembro do ano passado, a doença é apontada como responsável pelo óbito de 24.088 pessoas de um grupo de 60.175 mortos até o final de junho deste ano. É o mesmo que dizer que quatro em cada dez paranaenses que morreram no período foram vitimados pela doença. 


Doutor em demografia pela UFMG (Universidade Federal de Minas Gerais) e pesquisador aposentado do IBGE, o sociólogo José Eustáquio Diniz Alves constatou que a pandemia adiou para 2021 o cumprimento das metas populacionais do país que eram previstas para 2020. No final de abril deste ano, Alves publicou que o Brasil havia acabado de atingir um "empate" populacional entre que os estavam chegando e os que foram embora. A análise dele também levou em conta os dados do Portal da Transparência do Registro Civil. 


Para se ter uma ideia do ineditismo deste episódio é preciso considerar a previsão para o início do encolhimento da população feita antes da pandemia. A projeção apontava que as curvas de natalidade e mortalidade se encontrariam somente em 2047.


Previsão de pico é para março de 2022


"É uma linha que tem grande chance de estar certa", avaliou o coordenador do programa de pós-graduação em Matemática Aplicada e Computacional da UEL (Universidade Estadual de Londrina), Eliandro Cirilo, sobre a análise apontada pelo Instituto do Registro Civil. Responsável pelo estudo "Simulação do Espalhamento da Covid-19 em Londrina", ao lado dos professores Neyva Romeiro e Paulo Natti. 


"Em que aspecto a pandemia tem culpa nos óbitos e no baixo nascimento? Quase dois mil óbitos a mais [1,6 mil até o momento em Londrina], um número histórico por causa da pandemia. E a pandemia mata em outros aspectos também, através do déficit de atendimento na saúde pública, pessoas com outras doenças sendo negligenciadas, pessoas que resolveram não ter filhos, divórcios. Diversos fatores que levam a essa contabilidade entre mortos e nascidos", analisou.  


Em conjunto com alunos da instituição, o professor colocou os dados disponibilizados pela Secretaria Municipal de Saúde para "conversarem" entre si por meio de modelo matemático epidemiológico SEIR (Suscetíveis, Expostos, Infectados e Retirados). Atualizado a cada 14 dias desde o o final de abril do ano passado, o modelo matemático concluiu, até o dia 13 de julho, que a vacinação ainda não havia sido capaz de induzir a diminuição de novos casos em Londrina. "Quando se olha o início da vacinação, percebe-se leve aceleração da doença. Ela está subindo de forma bem leve", disse.


A constatação levou em conta a porcentagem da população vacinada em contraste com o número de novos infectados. "Em 13 de julho ainda contávamos com 458 mil moradores suscetíveis. É muita gente perto dos que já foram removidos, ou seja, os mortos e os vacinados, com uma margem de 50% de eficácia. Estes eram 110 mil pessoas", explicou. 


Além dos números, as políticas de isolamento social e o comportamento da população em relação à doença também são levados em conta. Desta forma, o modelo matemático previu um novo pico para a doença. A data, obtida no dia 13 de julho, apontava para 21 de março de 2022. "É uma doença dinâmica e não determinística. Por mais que eu faça uma previsão, posso intervir hoje para que não aconteça. Por isso, optamos por fazer simulações de 14 em 14 dias", explicou. 


O professor reafirma uma dura opinião que parece ser consenso entre cientistas de dados, virologistas e médicos: a de que ainda estamos longe do fim da pandemia. "Tem uma grande chance de vivenciarmos todo esse transtorno até o final de 2022. Existe até uma simulação feita pela CeMEAI (Centro de Ciência Matemáticas Aplicadas à Indústria), de São Carlos (SP), apontando que a vacinação vai se consolidar até o final de 2022. Daqui até lá tem muita coisa para acontecer: variantes, aprovação das vacinas internacionalmente, várias pessoas vão pegar a doença, desenvolver comorbidades, reinfecções. O fato é que precisamos ter na população a imunidade de rebanho", concluiu.

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