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Pandemia derruba procedimentos em ambulatórios do SUS

No Paraná, queda foi de 35%, o que representa quase 2,7 milhões de exames e cirurgias a menos

Lucas Catanho - Especial para a FOLHA
Lucas Catanho - Especial para a FOLHA

As restrições de acesso aos hospitais, o contingenciamento de leitos para o tratamento da Covid-19 e o medo de pacientes em procurar ajuda médica em função da pandemia provocaram uma queda, no ano passado, de quase 2,7 milhões de exames, cirurgias e outros procedimentos eletivos no Paraná, aqueles não programados ou que não são considerados de urgência e emergência. Em todo o Brasil, a redução chegou a quase 27 milhões de procedimentos em 2020, na comparação com 2019. 


 

Donizetti Filho, vice-presidente do CFM, destaca que a pandemia trouxe um novo cenário na assistência médica
Donizetti Filho, vice-presidente do CFM, destaca que a pandemia trouxe um novo cenário na assistência médica | Divulgação
 


Os dados são de levantamento feito pelo CFM (Conselho Federal de Medicina), que tem analisado os efeitos da crise sanitária instalada no Brasil desde março do ano passado. 


De acordo com o estudo, o Paraná foi o quinto Estado brasileiro com a maior queda no volume de procedimentos médicos ambulatoriais, juntamente com Mato Grosso do Sul e Sergipe – todos registraram uma redução de 35%, maior que a média nacional, que ficou em 28%. 


 

Pandemia derruba procedimentos em ambulatórios do SUS
iStock
 


Em números absolutos, o Paraná realizou 2.675.259 procedimentos a menos no ano passado, caindo de 7.740.458 para 5.065.199. Os Estados que registraram maiores quedas foram Alagoas (-47%), Piauí (-45%), Amazonas (-38%) e Espírito Santo (-36%). 


O levantamento levou em conta o volume de atendimentos médicos registrados no Sistema de Informações Ambulatoriais do SUS (Sistema Único de Saúde), entre março (mês em que começou a pandemia) e dezembro de 2020, na comparação com o mesmo período do ano anterior.  


Segundo o CFM, uma das medidas de enfrentamento à Covid-19 foi a suspensão de procedimentos eletivos, com o intuito de preservar equipamentos de proteção individual e leitos e evitar o colapso do SUS e a consequente desassistência a pacientes infectados pelo coronavírus.  


“A pandemia trouxe um novo cenário na assistência médica no país. Neste período de tempo ocorreu uma diminuição da oferta de serviços, justificada plenamente pela necessidade de atendimentos para pacientes com Covid. Além da menor oferta, ocorreu ainda diminuição de procura de serviços pela população, com temor de se dirigir aos serviços”, explica Donizetti Dimer Giamberardino Filho, vice-presidente do Conselho Federal de Medicina e conselheiro representante do Paraná na entidade. 


Segundo Giamberardino, o impacto da queda nos atendimentos em decorrência da pandemia irá gerar efeitos com o avanço do tempo. “A atenção primária diminuiu o número de procedimentos, como também o acompanhamento de doenças prevalentes como hipertensão arterial, diabetes, entre outras. O acesso a exames que permitem diagnóstico precoce na área de câncer e para outras doenças também diminuiu.”  


De acordo com o vice-presidente do CFM, esses represamentos resultam em prejuízos à saúde dos pacientes, com a evolução natural de doenças levando a piores resultados de tratamento e maiores custos. “Esse represamento deverá sobrecarregar a capacidade instalada, já esgotada em muitas regiões do Brasil.” 


Ele acrescenta que é preciso levar à população informações de que ela deve procurar serviços médicos, sempre respeitando o distanciamento social, uso de máscaras e higienização. “Cabe ao gestor público de saúde priorizar a atenção primária, os exames preventivos e o controle de doenças crônicas, além de organizar as demandas de cirurgias eletivas.” 


GARGALOS 


O médico destaca que a capacidade do SUS no período anterior à pandemia já apresentava gargalos de acesso, e ainda parte dessa capacidade foi transferida para o atendimento de pacientes com Covid durante a pandemia. 


“Os orçamentos foram redistribuídos em níveis municipal e estadual. Os investimentos federais vieram, mas não de forma permanente, e os novos leitos ativados com a verba federal não permaneceram”, destaca. 


Em virtude disso, os problemas de 2019 persistem, como por exemplo o subfinanciamento do SUS, a falta de organização de rede assistencial e da racionalização de recursos. “Esse quadro leva ao principal problema pré-pandemia: a dificuldade de acesso do cidadão aos cuidados de saúde.” 


Para o vice-presidente do CFM, estudos como esse divulgados pela entidade são realizados para conscientizar a população e os gestores de saúde sobre a necessidade de reavaliação de estratégias de enfrentamento à pandemia. “Os serviços de saúde devem ser retomados, com devidos cuidados sanitários de convivência com a circulação do coronavírus nos ambientes”, aponta. 


A Secretaria da Saúde do Paraná foi contatada para comentar sobre os números da pesquisa, mas não respondeu ao pedido de entrevista. 


ESTATÍSTICAS 

 

Pandemia derruba procedimentos em ambulatórios do SUS
 


Entre os quase 27 milhões de procedimentos a menos no Brasil, pelo menos 16 milhões referem-se a exames com finalidade diagnóstica, 8 milhões de procedimentos clínicos, 1,2 milhão de pequenas cirurgias e 210 mil transplantes de órgãos, tecidos e células. 


Os procedimentos realizados por oftalmologistas, sobretudo consultas e exames de mapeamento de retina e aferição da pressão intraocular (tonometria), caíram de 18,5 milhões em 2019 para 12,2 milhões em 2020, um deficit de pelo menos 6,3 milhões (-34%) entre os períodos analisados. 


No ranking das áreas médicas mais acometidas, além da oftalmologia estão a radiologia, com redução de 5,4 milhões de procedimentos; clínica médica (-2,8 milhões) e radioterapia (-2,6 milhões). 

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