Panambi é um centro produtor
Os mais de 300 colonos do Distrito de Panambi assistem perplexos ao conflito que envolve parte de suas terras. Panambi é a principal região produtora de soja de Dourados, o segundo centro econômico do Mato Grosso do Sul. O distrito nasceu da mais antiga e bem sucedida experiência de reforma agrária feita no Brasil.
Os colonos mais velhos estão ali desde o final dos anos 40, quando o governo Getúlio Vargas distribuiu e titulou milhares de lotes de 12 alqueires para colonos gaúchos, paranaenses e paulistas, na região que hoje é o Mato Grosso do Sul. Assim, núcleos de pequenos proprietários formaram-se por todo o Estado. O de Panambi, com suas terras roxas e férteis, foi o que mais deu certo. Até o município de Dourados, então um pequeno vilarejo, cresceu e prosperou a partir da produção agrícola de Panambi. Três gerações de colonos já nasceram nessas terras.
Durante o processo de colonização, o governo Vargas foi confinando em aldeias os milhares de índios guaranis e kaiowás (sub-tronco dos guaranis) que viviam no Mato Grosso. Em Dourados e Panambi estão concentrados mais de seis mil guaranis e kaiowás. A aldeia do Panambi tem 160 índios em 60 alqueires. Na de Dourados, em pouco mais de mil alqueires se concentram dez mil índios, 6.500 guaranis e kaiowás e os outros da etnia Terena.
Nas últimas décadas, com o crescimento da população indígena, as aldeias foram ficando pequenas. A de Dourados é quase um bairro da periferia da cidade, uma imensa favela rural, onde os índios adoecem e morrem de todo tipo de moléstia do homem branco. Diante disso, passaram a pleitear a recuperação de suas antigas terras.
No caso de Panambi, eles querem uma área de 1.180 hectares onde vivem 38 colonos. Ali existe um antigo cemitério indígena. Em dezembro de 1994, em visita a Dourados, o então ministro da Justiça, Nelson Jobim, assinou portaria em que transferia aos indígenas o direito de posse da área. Foi o estopim. Os colonos se organizaram, tentaram sucessivas formas de pressão, mas sem resultados. Eles querem ser indenizados em cerca de R$ 7 milhões para deixar a área. O governo propõe pagar apenas as benfeitorias.
O problema é que nem todos os colonos possuem terras com benfeitorias. ‘‘Cheguei nessa região em 1960 e adquiri uma pequena área em Panambi. Só que as minhas terras não têm benfeitorias. Nelas, produzo milho e soja. Para o governo, a área não vale nada, mas é o que garante minha sobrevivência. A terra é legítima e eu não saio daqui de jeito nenhum, só morto’’, avisa o colono Anésio Marques Rosa, de 70 anos.
Outros colonos de Panambi, com receio de que o conflito tome proporções ainda maiores, se mostram dispostos a negociar as terras. ‘‘Meu interesse, como o dos demais, é ficar desde que o governo federal nos apresente uma proposta formal e pague um valor justo pelas terras. Mas se isso não acontecer, vai haver conflito mesmo e, com certeza, vão morrer muitos brancos e índios’’, afirma José da Silva Ramos, membro da comissão dos proprietários da área reivindicada pelos índios, que vive em Panambi desde 1952.
Pedro, irmão de José, também mora na colônia há quase 50 anos e assegura que, até o surgimento do atual conflito, brancos e índios conviviam em perfeita harmonia na colonia. ‘‘A maioria dos índios daqui não quer essa guerra. Eles dizem que só estão interessados em trabalhar e ganhar dinheiro. Os índios não plantam quase nada e vivem basicamente do trabalho que exercem nas plantações dos colonos. E mesmo assim, eles têm uma vida miserável, tomam muita pinga e sempre precisam de ajuda. Mas eles estão sofrendo pressão dos índios de outras aldeias para exigirem as terras’’, acredita.
Se de um lado os colonos se recusam a sair da região, do outro os índios também garantem que só deixam a área mortos. A solução para o problema, segundo José, seria manter as coisas como estão e o governo adquirir uma nova área para a transferência dos índios mais jovens. ‘‘As tribos indígenas valorizam muito a terra e seus antepassados. Essa tradição é muito respeitada principalmente pelos índios mais velhos.’’ (P.S.M., A.C. e O.S.)

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