Cidade do Panamá, 14 (AE-AP) - Fazendo ecoar uma estrofe do hino nacional panamenho - "o canal é nosso" -, a presidente do país, Mireya Moscoso, recebeu hoje (14), simbolicamente, o controle do canal interoceânico numa cerimônia marcada mais pelas ausências do que pelos discursos dos convidados.
Sem a presença do presidente americano, Bill Clinton, coube ao ex- presidente Jimmy Carter a responsabilidade de representar os EUA na cerimônia.
"Começa hoje uma nova era nas relações entre meu país e o seu", discursou Carter, dirigindo-se a Mireya. "Trata-se de uma das ocasiões históricas mais importantes do século neste hemisfério", prosseguiu.
O canal só foi entregue aos panamenhos graças aos acordos firmados em 1977 entre Carter e o então presidente do Panamá, Omar Torrijos, morto num acidente aéreo em 1981. Em seu discurso, Carter lembrou as dificuldades que enfrentou para que o Senado aprovasse o acordo. "Esse não foi um tratado muito popular", afirmou, recordando que 13 senadores democratas não conseguiram se reeleger depois de aprovar o pacto.
A construção do canal pelos americanos terminou em 1914. O tratado da época conferia aos EUA o direito perpétuo sobre a passagem, que interliga os dois maiores oceanos do planeta: o Atlântico e o Pacífico.
Durante décadas, o canal foi um dos mais significativos símbolos da hegemonia americana no continente.
"Tanto no meu quanto no seu há demagogos que exageram problemas e vêem situações catastróficas onde não há. Em meu país há até mesmo aqueles que propagandeiam versões fantasiosas sobre a segurança do canal", prosseguiu Carter, discursando em espanhol.
A menção do nome do ex-presidente panamenho que firmou o tratado de devolução com ele foi evitada por Carter na cerimônia. Torrijos chegou ao poder em 1968 depois de derrubar o presidente Arnulfo Arias, que era marido de Mireya.
Mas partiu da presidente a iniciativa de lembrar o papel do ex- rival político na negociação dos acordos com os EUA. "Não há como negar que ele soube aproveitar a oportunidade histórica de transformar o tema de reivindicação nacional a um nível mundial", disse.
Apesar da celebração de hoje, os panamenhos só assumem de fato o controle da via interoceânica no dia 31. Em Washington, Clinton divulgou uma nota pedindo ao governo panamenho que não poupe esforços para manter a segurança do canal. "A cerimônia de hoje sublinha nossa confiança no governo do Panamá e na capacidade do povo panamenho de gerenciar essa vital via de comércio", dizia a nota.
Clinton evitou viajar ao Panamá para não dar munição à oposição republicana na eleição do ano 2000. A secretária de Estado americana, Madeleine Albright, participaria da festa panamenha, mas cancelou o compromisso por causa das negociações de amanhã, em Washington, entre sírios e israelenses.
Além do canal em si, os EUA restituíram ao Panamá uma vasta área de terra ao longo da rota, conhecida como Zona do Canal - um verdadeiro enclave militar americano na região, estabelecido desde a época da construção do canal.

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