Panahi dedica prêmio às 'pessoas boas' de seu país
Ao receber o prêmio, Jafar Panahi o dedicou às pessoas boas do seu país. Com isso, talvez, querendo dizer que nem toda a população iraniana seja composta por gente de índole amigável. Especialmente quem habita o poder e permite que se mantenham os fatos que ele denuncia no filme.
Panahi contou que a idéia para o filme lhe veio de duas fontes. A primeira: ficou impressionado com uma notícia de jornal contando que uma mulher havia se suicidado depois de ter matado as duas filhas pequenas. A segunda foi uma experiência pessoal. Quando sua mulher teve bebê, a mãe do cineasta veio lhe trazer a notícia. Chegou com cara de enterro e Panahi preparou-se para o pior. Pensou que ou a mulher ou a criança tinha morrido. Nada disso. Simplesmente sua mulher tivera uma menina.
Para falar da condição feminina, Panahi segue algumas trajetórias pessoais. Por exemplo, três presidiárias que conseguem uma permissão especial para o fim de semana, mas não sabem o que fazer da liberdade recém-adquirida. Como não estão acompanhadas de um homem, não podem tomar um ônibus sozinhas, ou mesmo fumar um cigarro na rua. As vidas vão se cruzando, como se o drama de uma remetesse ao drama de outra.
Uma delas procura abandonar a filhinha pequena porque não pode criá-la direito. Outra conta que o marido foi executado pelo regime. No último encontro que tiveram, ela ficou grávida. Agora tenta abortar porque não vai poder criar o filho sozinha. Há aquela que aceita que o marido tenha uma amante porque está ficando velha. E assim por diante. A ação é circular. Começa no nascimento com a tela escura, depois o que se vêem são as grades de uma prisão e, no fim, novamente vê-se o presídio.
Como se as mulheres saíssem da prisão apenas para entrar em outra prisão, maior, o país inteiro, no qual são pessoas sem cidadania. Um filme tocante. (Agência Estado)





