Palestinos temem que sociedade vire milícia
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quinta-feira, 11 de fevereiro de 1999
Por Wafa Amr, da REUTERS (assinatura obrigatória) 
Ramallah (AE-REUTERS) - Anwar Awad disse que desfrutava de uma quieta tarde em casa quando um homem armado apareceu e o baleou 13 vezes nas pernas. O tiroteio, provocado pela disputa por uma mulher durante uma festa de ano-novo em uma boate na Cisjordânia, preocupou particularmente a Autoridade Palestina, uma vez que Awad e o homem que atirou nele são ambos agentes armados de segurança palestinos.
Nove serviços de segurança palestinos operam em áreas auto-comandadas na Cisjordânia e na Faixa de Gaza, e tensões entre estes serviços algumas vezes terminam em violência. "Estamos vivendo em um mundo de milícias. O problema é que não há leis ou regulamentos que governem as relações entre os muitos serviços de segurança e com as pessoas", disse o analista político palestino Ghassan al-Khatib. De sua cama no hospital na cidade de Ramallah, Awad disse que foi baleado porque obrigou oficiais de segurança bêbados a pararem de molestar uma mulher que dançava com seu marido em uma boate. "No dia seguinte eles vieram me prender", disse ele, insistindo que foi baleado sem ter provocado.
Os oficiais de segurança afirmam que foi Awad, de 27 anos, que molestou a mulher - uma parente de um alto oficial palestino que exigiu sua prisão. "No dia seguinte um chefe de segurança ordenou que seus homens prendessem Awad e ordenou que atirassem nele se houvesse resistência. Quando os agentes entraram na casa, ele atirou neles e eles responderam atingindo suas pernas com balas", disse um oficial. Em uma mostra de preocupação, a facção Fatah do presidente Yasser Arafat - cujos membros formam a espinha dorsal de muitos grupos de segurança - condenou o uso de armas por agentes e pela polícia na resolução de diferenças, dizendo que este é "um fenômeno extremamente perigoso. O comunicado da Fatah seguiu recentes incidentes de tiroteios nos quais dois de seus oficiais foram feridos em Gaza e muitos mais em Ramallah.
Em um panfleto, a facção pediu à Autoridade Palestina para que haja mais controle de armas. "Usar armas em disputas é uma situação extremamente perigosa e as pessoas têm muito medo. Isso tem que terminar", disse o líder da Fatah, Marwan Barghouthi. No mês passado em Gaza, um policial atirou para cima e para o chão quando foi atacado por um grupo de pessoas depois de um acidente de carro. "Infelizmente, dois cidadãos foram feridos no incidente. Aconteceu por engano", disse o general Mahmoud Asfour, um chefe de polícia senior em Gaza. Asfour contou que o policial foi detido e o incidente está sendo investigado.
Em várias outras ocasiões, homens de segurança atiraram um nos outros em disputas por carros, terras ou até mesmo por simples discussões. Os serviços de segurança proveram empregos para mais de 30 mil membros da Fatah, que lutaram como guerrilheiros contra Israel antes do acordo de paz de Oslo em 1993. Muitos foram recrutados em uma tentativa de cortar 23% do desemprego nas áreas auto-comandadas, uma das taxas mais altas do mundo. "É um fenômeno nocivo porque as armas são adquiridas por pessoas que não são policiais profissionais", disse Khatib.
Na cidade de Ramallah, homens de segurança armados que querem se divertir podem ser um risco para a vida noturna. "Os homens de segurança se tornaram visitantes frequentes de restaurantes respeitáveis - e acabaram afugentando pessoas respeitáveis que queriam aproveitar uma boa refeição", reclamou o dono de uma cafeteria em Ramallah. No ano passado, em uma resposta ao receio público e às reclamações sobre o comportamento dos oficiais de segurança, Arafat ordenou a execução de dois policiais que recorreram às armas para resolver disputas pessoais e familiares. As execuções, as primeiras nas áreas auto-comandadas, foram altamente bem recebidos pelos palestinos.


