Jerusalém, 19 (AE-AP) - Não perdendo tempo para colocar pressão sobre o primeiro-ministro eleito de Israel, Ehud Barak, palestinos sugeriram nesta quarta-feira (19) que irão declarar um Estado independente até o fim do ano e exigiram o fim da construção de assentamentos judeus.
Enquanto isso, Barak, que tem de formar um governo em semanas, buscou traçar uma linha entre os campos rivais religioso e secular de Israel. Ele também reuniu-se com altos chefes militares em meio a pedidos por uma rápida retirada israelense do sul do Líbano, uma de suas promessas de campanha.
Enquanto Barak levava à frente hoje uma rodada de atividade diplomática visando a reassegurar líderes mundiais que o processo de paz estará em breve de volta aos trilhos, vizinhos árabes expressaram otimismo sobre o alívio de tensões regionais.
A Síria - com a qual Israel ainda está tecnicamente em guerra - está encorajada com a vitória de Barak, afirmou o enviado da União Européia (UE), Miguel Moratinos, depois de reunir-se com o ministro do Exterior sírio.
O rei Abdullah da Jordânia disse que ao escolherem Barak, os israelenses mostraram que querem a paz. Mas Barak, um soldado de carreira e pacifista moderado que esmagou o primeiro-ministro Benjamin Netanyahu nas eleições de segunda-feira, não está tendo uma lua-de-mel com os palestinos.
Com Yasser Arafat olhando-o e sorrindo, um alto oficial palestino sugeriu que os palestinos podem declarar um Estado independente dentro de seis meses. Previamente, os palestinos haviam tacitamente aceitado uma data alvo extra-oficial de maio de 2000 para a independência.
"Se Deus quiser, teremos nosso Estado com Jerusalém como sua capital até o fim deste ano", afirmou Tayyeb Abdel Rahim, o secretário-geral da Autoridade Palestina, numa cerimônia de abertura de uma escola religiosa na Faixa de Gaza, com Arafat sentado no palco com ele.
Barak não tem descartado um Estado palestino, mas uma declaração unilateral de independência antes que seus termos sejam acordados com Israel colocaria enormes problemas para ele.
Os palestinos, que querem tradicionalmente a árabe Jerusalém Oriental como sua capital, também criticaram duramente a declaração de Barak de que Jerusalém continuará indivisível e sob a soberania israelense.
"Foi uma mensagem negativa e um mau começo", declarou Nabil Amr, o ministro dos Assuntos Parlamentares palestino. Em seu discurso da vitória na madrugada de terça-feira, Barak prometeu uma "Jerusalém unida sob nossa soberania pela eternidade - ponto".
Durante a campanha de Barak, os palestinos agiram com extrema cautela, considerando que eleitores israelenses agitados com a segurança poderiam ficar mais inclinados a votar em Netanyahu. Nos cinco meses de campanha não houve distúrbios significativos na Cisjordânia e Faixa de Gaza, e Arafat manteve sob rédea curta o Hamas, o grupo militante islâmico que matou muitos israelenses em atentados suicidas a bomba.
Nesta quarta-feira, entretanto, os palestinos enviaram um sinal a Barak de que esperam mudanças assim que ele assumir o cargo. Eles pediram a ele para suspender construções judaicas em duas disputadas vizinhanças de Jerusalém, Ras al-Amud e Har Homa
e cancele contratos de construção de novos assentamentos.
Assessores de Barak afirmaram que ainda é cedo demais para tratar tais questões. "Não estamos no governo... É prematuro tratar disto", afirmou Alon Pinkas, porta-voz de política exterior de Barak.
Barak não está, entretanto, esperando assumir o poder para cimentar laços com líderes mundiais. Nos últimos dois dias, ele falou por telefone com o presidente dos Estados Unidos, Bill Clinton, o primeiro-ministro britânico, Tony Blair, o presidente francês, Jacques Chirac, o rei Abdullah, da Jordânia, e o presidente egípcio, Hosni Mubarak.
O primeiro-ministro eleito espera se encontrar em breve com Clinton e ter uma subsequente conferência de paz com Arafat, Mubarak e Abdullah, afirmou o assessor de Barak Avraham Burg.
Em outro front, Barak, que tem prometido retirar as tropas israelenses do sul do Líbano em um ano, reuniu-se hoje com o homem que agora exerce seu antigo cargo, chefe do Estado-Maior das forças armadas, Shaul Mofaz. A Rádio de Israel divulgou hoje que comandantes-chave disseram na semana passada a Moraz que apóiam uma imediata retirada.
Negociações formais para a composição do novo governo de Barak não devem começar por vários dias, mas já existem disputas por cargos em seu gabinete e coalizão.
O maior dilema do primeiro-ministro eleito é se ele irá se alinhar com o enfraquecido Partido Likud que Netanyahu antes liderava, ou se busca uma aliança com o agora poderoso partido ultra-religioso Shas, que foi catapultado pelos eleitores para o status de terceiro maior partido de Israel.
Numa entrevista publicada hoje no diário Maariv, Barak descartou negociar uma coalizão com o Shas a menos que seu líder
Arieh Deri, condenado por desvio de verbas, se afaste formalmente das conversações. Deri desistiu de sua cadeira parlamentar mas aparentemente continua uma força nos bastidores no movimento Shas.
Assessores de Barak disseram que ele prefere trazer o Likud para o governo ao invés do Shas. Em anos recentes, judeus seculares vêm reclamando cada vez mais do poder do establishment religioso sobre a vida cotidiana em Israel.
"Com o Likud nós temos um entendimento sobre o que é o Estado de Israel... Com o Shas, não temos um entendimento como este", afirmou Burg, o assessor de Barak.
Barak tem sugerido que seu governo terá amplas bases, portanto
aqueles que buscam emprego nele cobrem muito do leque político.
O linha dura Ariel Sharon é mencionado como um possível ministro do Exterior. O pacifista ex-primeiro-ministro Shimon Peres está pretendendo uma pasta de destaque, e o ex-dissidente soviético Natan Sharansky quer o Ministério do Exterior, o poderoso porteiro da imigração para Israel.
Para alguns, a esmagadora vitória de Barak foi um sinal para abandonar a política. Benny Begin, líder de um partido direitista e filho do falecido primeiro-ministro Menachem Begin, anunciou hoje que abandonaria o parlamento e iria retirar-se da vida pública depois de sua fracassada tentativa de ser primeiro-ministro e da surra que seu partido levou na disputa parlamentar.
Reconhecendo sua falta de carisma, o mais jovem Begin classificou-se de "uma mensagem sem um mensageiro".

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